A primeira edição da cimeira/convenção organizada pela Car Academy juntou 180 profissionais das oficinas para pensar o futuro do setor automóvel. O Jornal das Oficinas foi ouvir tudo aquilo que disseram…
No passado sábado, dia 26 de setembro, a sala de congressos do Lagoas Park Hotel, em Lisboa, engalanou-se para receber 180 profissionais do setor automóvel, que deram por si a trocar a rotina da oficina por um dia inteiro de reflexão sobre o próprio negócio. Foi precisamente desta forma que arrancou a Mech Summit 2026, a primeira cimeira organizada pela Car Academy, uma iniciativa que nasceu, segundo José Pedro, um dos responsáveis pelo evento e CEO da Car Academy, do contacto diário com as oficinas e da perceção de que faltava um espaço onde profissionais de referência do setor pudessem partilhar conhecimento com quem vive o dia a dia da reparação automóvel.
Marisa Moreira, também da organização, resumiu o sentimento de quem passou meses a preparar o evento: “Foram vários meses a preparar tudo e ver esta sala cheia é muito gratificante.” Ao longo do dia, sucederam-se sete oradores e três casos técnicos reais, todos ligados por um fio condutor comum: como tornar as oficinas mais sólidas, mais rentáveis e mais preparadas para um setor em mudança acelerada.

Confiança: a base que sustenta tudo o resto
A primeira a subir ao palco foi Elsa Jorge, especialista em comunicação, liderança e engagement, e fundadora da Trust Connection Academy. Começou a sua intervenção com uma pergunta incómoda para o setor: quanto custa perder um bom profissional? Num mercado onde, segundo os dados que apresentou, 76% dos jovens sentem um estigma social associado às profissões técnicas, a oradora defendeu que a resposta não está fora da oficina, mas dentro dela.
Apresentou o seu modelo de confiança, construído sobre quatro pilares, competência, credibilidade, conexão e consistência, inspirado no modelo ABCD do autor David Maister. Cada pilar foi ilustrado com uma história no terreno: um jovem gestor de produção que conquistou uma fábrica inteira à custa de humildade e vontade de aprender; um afinador de cores tecnicamente brilhante mas cuja falta de credibilidade obrigou a empresa a formar substitutos; um empresário que só recuperou a confiança da equipa quando parou de decidir por ela e passou a perguntar-lhe o que queria.
Elsa Jorge deixou ainda a metáfora que atravessou toda a intervenção: a confiança funciona como uma conta bancária, feita de depósitos diários e à qual, por vezes, esquecemo-nos de reforçar. “Não é uma coisa única ou generalizada. Depende da relação que temos com cada pessoa”, sublinha.

A oficina como empresa: onde se perde o tempo?
Seguiu-se Eurico Fertuzinhos, CEO da Weoptimize, que arrancou com uma provocação direta: “A tua oficina está a morrer lentamente”. O orador defendeu que uma oficina pode parecer cheia de movimento e, ainda assim, estar a perder dinheiro todos os dias, porque movimento não é o mesmo que produção de valor.
Apresentou contas concretas: perder apenas 15 minutos por dia com cada técnico representa cerca de 55 horas por ano; numa equipa de cinco pessoas, isso significa 275 horas perdidas, sem contar tempo à procura de ferramentas, à espera de peças ou de aprovações.
A receita proposta assentou em quatro verbos: observar, medir, organizar e melhorar. Observar o que realmente acontece com um carro desde que entra até que sai; medir a taxa de ocupação real dos técnicos; organizar o trabalho antes de ele começar, com um briefing diário de cinco minutos; e melhorar continuamente, sem nunca considerar o processo terminado.
Para Eurico Fertuzinhos, a desorganização não é uma fatalidade do setor, mas uma responsabilidade de quem gere o negócio. “Não é uma sentença. É um diagnóstico. E todos os diagnósticos têm tratamento.”

Atrair e reter talento num setor com falta de mão de obra
Catarina Alves, responsável de desenvolvimento de RH da Norauto, trouxe a perspetiva de quem lida diariamente com a escassez de técnicos qualificados. Defendeu que a retenção não começa no primeiro dia de trabalho, mas muito antes, no momento em que um futuro colaborador ouve falar pela primeira vez da empresa.
Estruturou a sua intervenção em quatro pilares, atração com propósito, onboarding, desenvolvimento contínuo, retenção e valorização, e partilhou práticas concretas da sua própria empresa: open days de verão, parcerias com escolas, um processo de candidatura simplificado e um quadro de competências acompanhado por cada líder.
Foram os resultados que deram peso ao discurso: uma taxa de evolução interna de 76% dos gestores, cerca de 90% de contratos sem termo e mais de 19 mil horas de formação por ano. Mas a mensagem mais forte ficou para o final, quando a oradora sugeriu inverter a lógica habitual das entrevistas de quem se despede por vontade própria: em vez de perguntar apenas porque é que as pessoas saem, talvez seja mais valioso perguntar às que ficam porque razão continuam. “A retenção começa antes do primeiro dia”, assinala.

O carro que vai entrar amanhã na oficina
Pedro Barros, CEO da Tips4You, trouxe os números para cima da mesa. Cruzando dados de viaturas novas, do parque circulante e de milhões de consultas por matrícula, mostrou que o parque português continua envelhecido, com uma idade média de 14,3 anos, e que a eletrificação, apesar de já representar cerca de 27% das vendas de viaturas novas, pesa ainda pouco no universo real das oficinas: apenas 2,6% das consultas registadas no seu sistema. A conclusão foi clara: daqui a uma década, três em cada quatro veículos em circulação continuarão a ter motor de combustão.
Para o orador, o desafio não é escolher entre o motor térmico e o elétrico, mas preparar as equipas para os dois mundos em simultâneo, sem substituir competências, apenas acrescentando-as. E, por trás de toda a transformação tecnológica, insistiu numa ideia simples: aquilo que o cliente espera de uma oficina, um diagnóstico correto, a peça certa, a mobilidade devolvida depressa e uma fatura cujo conteúdo se compreenda facilmente, não muda, seja qual for o carro que entra pela porta. “Se investirmos naquilo que não vai mudar, estaremos a apostar em estratégias com resultados mais duradouros.”

Três casos reais: o que o código de avaria não diz
A tarde abriu com três casos técnicos apresentados pela equipa da TechMaster. Foi partilhado o caso de um Smart elétrico cujo código de avaria apontava para uma falha na bomba de água, mas que, depois de testada elétrica e mecanicamente, se revelou uma questão de contagem de horas de funcionamento do componente. Foi mostrado como um problema de ralenti instável, atribuído a duas árvores de cames, escondia na realidade um desgaste mecânico entre o variador e a cabeça do motor, e como a tentação de “diagnosticar por histórico” quase levou a substituições desnecessárias.
O último caso foi sobre uma avaria de ar condicionado que só se manifestava em determinadas condições de utilização, resolvida apenas depois de o veículo ser testado na estrada e de se confirmar, com osciloscópio, uma falha real no sensor de pressão. Os três casos convergiram na mesma lição, resumida por um dos oradores: “Um código de avaria indica-nos onde procurar, não necessariamente o componente que devemos substituir.”

Inteligência artificial: A IA vai mudar a tua oficina
José Pedro, COO do Grupo J23M e CEO da Car Academy, partiu de um número que o incomodou: apenas 65% das horas dos seus técnicos estavam a ser faturadas, o equivalente a mais de 80 mil euros perdidos por ano. Foi a partir dessa análise que começou a construir aquilo a que chamou a sua “escada da inteligência artificial”: marketing e redes sociais geridas com apoio de IA, análise de dados de faturação, tradução automática de orçamentos técnicos para linguagem que o cliente compreenda, um chat interno de procedimentos e, por fim, uma base de conhecimento técnico validada por pessoas, usada para acelerar o diagnóstico.
O aviso mais importante da sua intervenção foi, no entanto, sobre os limites da tecnologia. A inteligência artificial não reparará o carro, não corrige uma oficina desorganizada e pode até amplificar o caos, se for aplicada sobre processos que já não funcionam. “Primeiro arrumem a casa. Depois acelerem.”
Dizer não a tempo e conhecer os números
David Carreto, CEO do Grupo Carretos, partilhou o momento em que percebeu que aceitar todo o tipo de trabalho tinha um custo escondido. Recordou um Mercedes W124 com injeção K-Jet aceite em 2018, sem que a oficina tivesse o equipamento certo para o intervencionar, e que se transformou num ponto de viragem na forma como a empresa passou a selecionar o trabalho que aceita.
Defendeu que crescer implica aprender a “dizer não sem dizer não”, apostar na especialização e substituir a gestão pela sensação por uma gestão apoiada em indicadores: número de viaturas, horas vendidas, margem média e faturação por carro.
Entre 2019 e 2026, o ticket médio de reparação da sua empresa subiu de 370 para 656 euros, sinal, segundo o próprio, de que nem toda a agenda cheia é sinónimo de negócio saudável. “Dizer que sim a tudo tem um preço que nunca se vê logo. Só mais à frente é que a gente percebe.”

A especialização como caminho de futuro
O encerramento das intervenções técnicas ficou a cargo de Bruno Lopes, CEO da KFZ Technik, que concentrou o negócio nos veículos do Grupo Volkswagen depois de perceber, com a experiência acumulada na própria Volkswagen e na Audi, que acompanhar demasiadas marcas ao mesmo tempo tornava impossível dominar a evolução tecnológica de cada uma.
Essa aposta permitiu à empresa investir em equipamento de diagnóstico oficial, aprofundar o acesso à informação técnica e transformar o diagnóstico em 70 a 75% da atividade da oficina. Para o orador, o processo começa muito antes de qualquer equipamento ser ligado ao carro: começa na receção, na forma como se ouve e se regista a queixa do cliente.
Bruno Lopes deixou ainda um recado sobre o valor do próprio trabalho técnico: um diagnóstico que exige horas de pesquisa, testes e consulta de documentação não pode ser cobrado apenas pelo tempo de substituição da peça final. “Nós temos que cobrar o diagnóstico. É o nosso trabalho. Não nos vamos desvalorizar.”

Um dia para parar e olhar para o negócio
No final do dia, ficou a sensação de que o Mech Summit cumpriu aquilo a que se propôs: tirar, por umas horas, os profissionais das oficinas, do ritmo do dia a dia, para olharem para o próprio negócio como uma empresa que exige gestão de pessoas, de tempo, de dados e de tecnologia.
Entre confiança, organização, talento, diagnóstico, inteligência artificial e especialização, o fio condutor de todas as intervenções foi sempre o mesmo: as oficinas que quiserem crescer de forma sustentável vão precisar de conhecer os seus próprios números tão bem como conhecem os motores que reparam todos os dias.
“Sentimos que fazia falta juntar, no mesmo espaço, uma série de profissionais que fazem este trabalho todos os dias no setor das oficinas”, contou José Pedro, CEO da Car Academy, sobre a génese do Mech Summit, um projeto que já vinha a ser preparado há vários meses. A ideia era criar algo diferente das formações habituais da Car Academy: um espaço de partilha entre mais de 150 profissionais e oradores com larga experiência no setor.
As inscrições, admitiu, não foram imediatas: arrancaram cerca de seis meses antes do evento, esmoreceram durante o verão e dispararam na reta final, só no último mês terão sido vendidas cerca de 110. “É um bocadinho típico do português, deixar para a última”, brincou.
A escolha dos oradores seguiu um critério de proximidade e confiança: profissionais que a Car Academy já conhecia de outros eventos e com quem mantém relações de parceria.
Sobre o momento da empresa, agora com 11 anos de existência, José Pedro fala em estabilidade e crescimento: a agenda de formações já está fechada até ao final do ano e a área de consultoria técnica tem ganho tração junto de redes e pequenas oficinas independentes.
Questionado sobre uma segunda edição do Mech Summit, preferiu não se comprometer antes de avaliar os resultados desta primeira: “Vamos ver se sai alguma novidade relativamente à segunda edição ou não.”

