A ponta do icebergue

A ponta do icebergueEsta é a analogia que me ocorre para o estado em que a indústria automóvel se encontra. É notória uma forte transformação tecnológica e, seguramente, que o futuro do nosso setor sofrerá fortes mudanças ao longo desta nova década.

Esta transformação afetará, de forma transversal, todos os operadores do mercado e, em particular, o setor dos lubrificantes. A “ordem para matar as emissões de CO2” fará com que as atuais formas de propulsão se alterem e a possível massificação de viaturas elétricas/autónomas levará a uma redução no consumo de lubrificantes neste setor. A indústria dos lubrificantes está a tentar minimizar os índices poluentes dos motores térmicos, com emissões de cinzas sulfatadas cada vez mais contidas, intervalos de manutenção mais alargados e maior eficiência do ponto de vista do consumo de combustível. Mas este setor, por si só, não será suficiente para que se possam atingir níveis de CO2 na ordem das 50 g/km a partir de 2023 e travar a tendência do setor para a eletrificação.

A “ordem para matar as emissões de CO2” fará com que as atuais formas de propulsão dos veículos se alterem

Esta propensão tem levado à introdução de níveis de viscosidade cada vez mais baixos (0W-20, 0W-16 – até se consideram 0W-8), com níveis de desempenho muito elevados, que garantem intervalos de manutenção mais alargados, os quais podem ascender aos 60.000 km nas viaturas ligeiras e já superam os 120.000 km nos veículos pesados. No entanto, a ineficiência energética da tecnologia térmica é elevada e ainda mais ineficiente do ponto de vista das emissões de CO2, se comparada com a tendência para a eletrificação.

Restará sempre para esta indústria a lubrificação de alguns componentes e acessórios, como caixas de velocidade, caixas de transferência e, também, as baterias, que necessitarão de anticongelantes com tecnologia de ponta por forma a aumentar a sua duração e eficiência. Tecnologia que ficará a cargo de muito poucas marcas, fruto das baixas quantidades envolvidas e elevada exigência técnica associada. Muitos continuam céticos em relação aos avanços da tecnologia. E uma grande maioria está descrente quanto às soluções elétricas. Mas será muito difícil travar esta tendência.

As forças são inúmeras e vêm de diversas áreas, como é disso exemplo o setor agrícola, fortemente afetado pela instabilidade climática. Para reforçar este ponto de vista, recordo recentes conversas que tive com o Eng.° Capoulas Santos, anterior Ministro da Agricultura, e com o Dr. José Fonseca, diretor regional da Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo, que me referiam que o maior problema que o setor primário atravessa é a instabilidade climática, que afeta todo o tipo de culturas a céu aberto, algo que está em cima da mesa por parte de todos os seus homólogos, em todo o mundo. Estas questões não fazem parte do nosso dia a dia enquanto operadores do setor terciário, mas não podemos deixar de as levar em consideração. Sem um setor primário funcional, nada acontecerá a montante.

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Do mesmo Autor: Bruno Castanheira

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