O papel (e a oportunidade) do ADAS no aftermarket independente

O papel (e a oportunidade) do ADAS no <em>aftermarket</em> independente

Mais tecnologia presente no veículo traz, a priori, novas oportunidades para as oficinas independentes. Contudo, existem questões essenciais que carecem de respostas no caso do ADAS (Advanced Driver Assistance Systems).

Um artigo publicado no site da PMM, plataforma online do Hamerville Media Group, a que o Jornal das Oficinas teve acesso, aborda os sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS). Estes não só estão a tornar-se mais comuns de dia para dia, como o seu desenvolvimento acontece à medida que a legislação europeia vai sendo cada vez mais exigente nesta matéria. Tanto mais, que a Comissão Europeia já anunciou que o ADAS deverá, obrigatoriamente, incluir mais funções a partir de 2022 em todos os novos veículos homologados.

Até agora, os sistemas foram concebidos para “ajudar” o condutor. Mas a verdade é que eles têm, cada vez mais, maior controlo sobre a forma como o veículo reage a determinadas situações. Se ocorrer algum problema com estes sistemas, os técnicos terão, então, maiores oportunidades de reparação. Será esta uma desvantagem ou uma boa notícia?

Serviço requer conhecimento

A questão fundamental está relacionada com a responsabilidade. O fabricante do veículo deve assegurar que o ADAS instalado no produto que concebe esteja a funcionar corretamente e, portanto, que os sensores sejam reparados como “mandam as regras” e que sejam devidamente recalibrados. Só que, infelizmente, isto levanta uma série de questões.

A Thatcham Research, consultora de pesquisa do setor automóvel sem fins lucrativos, publicou um guia que ajuda as oficinas e outras organizações de reparação a adotar a melhor forma de abordar a reparação do ADAS. E refere que a área fundamental tem a ver com o conhecimento dos próprios recursos oficinais.

O guia lança, também, um olhar sobre as funções dos fabricantes de veículos e das empresas de equipamentos oficinais quando se trata de ambas as “fações” facultarem os procedimentos corretos para reparação do ADAS, bem como quando precisam estes de ser recalibrados após a reparação de outras zonas do veículo.

No entanto, em toda esta equação está presente o elemento de “não se sabe o que não se sabe”. Embora varie de fabricante para fabricante, muitos ADAS são opcionais e, portanto, dois veículos com a mesma tipologia podem ter níveis diferentes de ADAS instalados, fruto das opções requisitadas pelo comprador antes de o veículo ser fabricado. O primeiro e mais importante passo é descobrir que sistemas estão instalados no veículo.

Canal das marcas de automóveis domina

Este processo pode ser possível utilizando uma ferramenta de diagnóstico para realizar um “scan global” do veículo, ainda que tal também exija que o software esteja atualizado e que se tenham as informações mais recentes acerca do ADAS. Embora esta seja uma boa solução, não existe 100% de garantia que todos os sistemas sejam identificados.

Os fabricantes de veículos podem fornecer informações nos seus sites, mas tal, provavelmente, exigirá que as oficinas independentes pesquisem todos os sistemas possíveis do veículo, o que se torna moroso e dispendioso.

A ferramenta de diagnóstico OEM pode fornecer parte da resposta nos testes de diagnóstico de rotina (como, por exemplo, um “scan global”), mas significaria a compra e a atualização de várias ferramentas de diagnóstico OEM para “cobrir” todas as marcas que entram em na oficina. O que não é, de todo, atraente do ponto de vista estritamente económico.

Os fabricantes de veículos alegam que têm responsabilidade direta sobre o ADAS durante toda a vida útil do veículo, uma vez que estes sistemas têm impacto direto sobre o controlo e a segurança do mesmo. O que levou os fabricantes de veículos a restringir, cada vez mais, a reparação e calibração do ADAS aos seus reparadores autorizados (ou seja, a oficinas afetas a concessionários), permitindo-lhes, deste modo, verificar se o veículo foi reparado corretamente, além de monitorizarem quem executou a reparação, que peças de reposição foram utilizadas e se o veículo foi ou não recalibrado corretamente. Como tal, a nova oportunidade de negócio para as oficinas independentes que representa a reparação do ADAS encontra-se ameaçada.

Nível de competência elevado

Tudo se resume a competência e à capacidade de identificar quem efetuou que tipo de intervenção num veículo equipado com ADAS. Não deve haver motivo para que as oficinas independentes não possam cumprir estes requisitos se assim o desejarem. Mas o mercado de reposição precisa de “arregaçar as mangas” e lutar pelo direito que tem de reparar e recalibrar o ADAS, tal como aconteceu, por exemplo, com o direito à reparação sem que a garantia do fabricante do veículo deixasse de ser anulada.

As oficinas independentes precisam de ser capazes de demonstrar competência e rastreabilidade para o trabalho que realizam no ADAS. Talvez seja necessário que haja uma estrutura através da qual as oficinas possam ser verificadas e registadas por intermédio de um “organismo de avaliação” que forneça um certificado/PIN a utilizar no acesso a peças relevantes ou códigos de reconfiguração no site do fabricante do veículo ou do “parceiro confiável” (por exemplo, fabricante de ferramentas de diagnóstico).

Estes certificados/PINs também podiam ser utilizados ​​quando a recalibração de um componente ADAS (por exemplo, uma câmara) fosse efetuada, atualizando o registo de serviço online do veículo. A oficina apenas receberia esse certificado/PIN se os técnicos tivessem a formação adequada e a empresa dispusesse do equipamento necessário, ambos para garantir o nível de competência necessário.

Como muitos veículos equipados com ADAS são “conectados”, o fabricante do veículo pode realizar uma verificação “over the air” para aferir se o ADAS foi reparado ou recalibrado corretamente.

Investimento superior será inevitável

Isto pode soar a uma mudança para “licenciamento oficinal”, mas seria esta uma coisa assim tão negativa? À medida que as tecnologias dos veículos continuam a aumentar, existe um inevitável incremento no investimento que é necessário efetuar para que uma oficina permaneça tecnicamente apetrechada e seja capaz de competir com o canal oficial das marcas de automóveis.

Se o cliente não confiar nas aptidões da oficina para a realização das reparações necessárias a um preço aceitável, esta não poderá, depois, ficar surpreendida se o cliente for procurar alguma que o faça (que poderá ser até uma oficina afeta ao concessionário, mesmo que esta cobre mais pela tarefa). Se os custos das oficinas independentes aumentarem para poderem efetuar intervenções em ADAS, então os preços dos serviços também deverão subir. Tal garantirá o mesmo nível de competência do canal oficial. Ficar-se de braços cruzados e nada fazer não é, sequer, opção.

Todas as oficinas independentes devem investir para assegurar a capacidade de desenvolver novos modelos de negócio em diagnóstico, reparação e recalibração de ADAS. Esta é, sem dúvida, uma oportunidade de negócio. Mas só irá materializar-se caso os clientes estejam confiantes na capacidade da oficina em realizar o trabalho corretamente.

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Do mesmo Autor: Bruno Castanheira

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