“Fazemos um diagnóstico positivo ao setor pós-venda!”, ANECRA

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Numa altura em que o setor da reparação automóvel atravessa um processo de mudança acelerada, o inquérito de conjuntura anual da ANECRA dá conta de alguns desafios que se apresentam às oficinas. Estruturas independentes, pequenas, com profissionais cada vez mais envelhecidos e um preço de mão de obra abaixo do desejável, são o retrato da maioria das oficinas nacionais, que se veem obrigadas a estugar o passo para não se deixarem ficar para trás. Sentámo-nos à mesa com Roberto Gaspar, secretário-geral da associação, que, ainda assim, nos deixa uma “perspetiva de confiança”, garantindo que o setor continua a ter viabilidade

Ano após ano, a ANECRA tem crescido em número de sócios efetivos, contando já com 3.800 empresas associadas. A associação desenvolve um trabalho pertinente na defesa dos interesses dos associados, com o secretário-geral, Roberto Gaspar, a explicar que “em breve iremos apresentar ao Governo um dossiê com um conjunto de temas transversais ao setor, é algo que fazemos de forma constante”. Por outro lado, a ANECRA também tem uma equipa de pessoas qualificadas a vários níveis, para dar apoio e consultoria aos associados, com uma média anual de “sete a oito mil contactos nas áreas jurídica, económica, fiscal, ambiental ou técnica, tanto para apoio, como para formação ou workshops”, diz-nos o responsável que relembra que a associação tem, “historicamente, uma preocupação muito grande com a formação de pessoal e fazemos parte da administração e dos órgãos sociais do CEPRA, e para além disso, somos uma entidade credenciada e certificada, enquanto entidade formadora”. Numa terceira vertente, “estamos constantemente à procura de serviços parceiros que acreditamos possam acrescentar valor aos associados”, além da dinamização de encontros, sendo que na última convenção estiveram presentes 600 pessoas, pois consideram “importante que os associados sintam que estamos com eles, estamos presentes e ativos, trazemos pessoas para discutirem alguns dos temas que são mais importantes”, reflete, entendendo que esse é o desafio atual da associação, “sermos relevantes para os associados”.

“É cada vez mais difícil ser um operador independente”
Os resultados do inquérito de conjuntura, relativo a 2024, contou com mais de 250 respostas e dão conta de que 72% das oficinas são independentes, sem ligação a redes, com 24% a terem ligação a redes e 4% a apresentarem-se como reparadores autorizados de marca. Para Roberto Gaspar, “é cada vez mais difícil ser um operador independente porque as exigências do ponto de vista da informação, da adaptação, da necessidade de formação, de encontrar o pessoal certo e capacidade são cada vez mais. Apesar de tudo, Portugal contraria a tendência, porque há anos que andamos a dizer que as redes vão tomar conta do mercado e ainda há uma predominância grande de operadores independentes”.

Os dados apontam que 95% das oficinas fazem trabalhos de mecânica, 49% têm serviços de bate-chapa e 42% de pintura, havendo apenas 22% das oficinas a fazer reparações em veículos elétricos, o que, para o secretário-geral da ANECRA tem uma razão: “em termos de parque circulante, estamos a falar de uma minoria de 2%, dos quais grande parte entrou no parque nos últimos três, quatro anos e estão ainda nas concessionárias, pelo que não deixa, por enquanto, de ser um nicho de mercado”.

O setor é caraterizado por oficinas pequenas, com uma média de cinco funcionários produtivos e dois não produtivos, o que, no entender de Roberto Gaspar, levará a que estas venham a desaparecer. “Os carros cada vez são mais complexos, têm maior dificuldade de reparação. E, portanto, oficinas com poucas pessoas, em princípio, estarão menos habilitadas para fazer a reparação de carros”, considera, notando, porém, que “o nosso parque automóvel hoje diz-nos que durante alguns anos, ainda há espaço para as oficinas poderem funcionar, porque nós temos uma percentagem enorme de veículos com mais de dez, quinze e vinte anos”.

“Dificuldade em atrair novas gerações para o setor”
De acordo com o inquérito, a idade média dos mecânicos é de 41 anos, a dos bate-chapas é de 49 anos e a dos pintores é de 45, denotando, além do envelhecimento latente, “uma escassez enorme de pessoal, pela falta de atratividade do setor. Temos muita dificuldade em atrair novas gerações para o setor, os jovens fazem os cursos de formação, no CEPRA e uma boa parte depois acaba por ir para outras áreas. Ao mesmo tempo, também é difícil reter os que já estão no setor e isso é algo que não vamos resolver nem num ano, nem em dois. É um processo que vai levar tempo, que obriga a mostrar às gerações que este é um setor que tem futuro e que, se compararmos com outras atividades, é mais bem pago, ainda que continue a ser conotado como um setor pouco organizado e sujo, o que afasta os jovens. Temos que mostrar que não é assim, que hoje em dia os carros são computadores e isso é um trabalho que envolve as associações, centros como o CEPRA e o próprio Governo, através do Instituto de Emprego”, diz Roberto Gaspar.

O secretário-geral da ANECRA defende que esta é uma questão que poderia ser colmatada, mas que, atualmente, enfrenta barreiras burocráticas, dando o exemplo de um associado que “identificou 12 profissionais da Colômbia, houve uma empresa que validou, entrevistou as pessoas, arranjou-lhes casas, tratou do processo e demorou um ano e tal até conseguir tê-las cá. Esse é o problema. Uma das coisas que estamos agora para fazer é alertar o governo, porque existe um programa que é conhecido como a Via Verde e facilita o processo. É um processo que esperamos que possa ser mais agilizado, porque continua a haver uma falta enorme de pessoas. O setor provavelmente nesta altura não cresce mais, porque está com tempos de reparação grandes por falta de pessoal”, alerta, sublinhando que “o pós-venda tem vindo consecutivamente a crescer no pós-Covid, o que é um sinal encorajador”.

Preços muito baixos de mão de obra
No que diz respeito ao preço médio praticado da mão-de-obra, há a registar em final de 2024 um aumento face a 2023, cujo valor se fixava nos 31,54€, estando agora nos 34,03€. Este é, no entender de Roberto Gaspar, um “problema estrutural em Portugal, pois durante muitos anos as oficinas recorriam à margem das peças para compor o valor. À medida que a concorrência vai sendo maior e as margens das peças já não são o que eram, isso gera um problema grave na mão de obra. É a história, tipicamente nacional, de não gostar muito de mostrar o preço da mão-de-obra com medo que o cliente fuja. Mas a verdade é que em determinada altura teremos de resolver isso”, salienta, assumindo desde logo que “se querermos captar gente capaz, temos de pagar bem e, para isso, o preço da mão de obra terá de ser aumentado, porque comparado com outros países, a diferença é absolutamente abismal”.

O estudo realizado pela ANECRA indica também que, em 2024, cada reparador abriu 850 obras, das quais 60% para particulares. Questionado sobre ter menos clientes empresariais poderá ser entendido como uma perda de oportunidade, o responsável responde que “é a lógica do copo meio cheio e meio vazio. Eu acho que se as oficinas tiverem uma diferenciação maior em termos de clientes, tanto melhor. Se estiverem muito focados em clientes empresariais, o risco é menor, mas as margens ainda serão menores. E, portanto, ter uma dispersão grande em termos de clientes, diria até que lhes permite ter melhores margens, e permite-lhes ter menor risco. Eu até vejo isso como uma coisa saudável”, comenta. A maioria das oficinas fatura mensalmente entre 10 e 25 mil euros, “um valor muito baixo”, na opinião de Roberto Gaspar, para sustentar o negócio.

“A diferença faz-se pela parte técnica, mas também pela capacidade de gestão”
Há 47% das oficinas que conseguem uma taxa de ocupação superior a 75%, ao passo que, do outro lado da barricada, há ainda 17% dos reparadores independentes que têm taxas de ocupação inferiores a 50%. São níveis de produtividade “que variam muito. Hoje há oficinas que ainda têm problemas gravíssimos do ponto de vista da organização, da produtividade e, muitas vezes, queixam-se de outras coisas, quando o que têm é, claramente, má gestão. Acreditamos que a diferença se faz pela parte técnica, mas também pela capacidade de gestão”.

Atualmente, apenas 33% das oficinas têm acordos com seguradoras, 24% com gestoras de frota e 71% trabalham com grandes frotas, assinalando-se alguma relutância da parte das oficinas em fazerem acordos com as seguradoras, “pelo nível de exigência e de regras que muitas vezes impõem”, conta-nos o nosso entrevistado, que acrescenta que a ANECRA tem um protocolo com a APS, Associação Portuguesa de Seguros, definindo “um conjunto de boas práticas. Nesta altura estamos precisamente a rever esse processo, porque temos auscultado o mercado e julgamos que vale a pena revisitar algumas questões em relação a esse tema”, revela-nos Roberto Gaspar.

As oficinas apontam como principais dificuldades a falta de pessoal, o custo da gestão ambiental e a concorrência desleal, com o secretário-geral da ANECRA a assegurar que “sempre que nos façam evidência de situações de concorrência desleal, nós, enquanto associação, defendemos a legalidade e indicaremos às autoridades, mas mais do que isso, logicamente, não podemos fazer. Também convidamos pessoas da ASAE para falarem sobre as boas práticas, o que devem fazer para evitar situações de coima, tudo numa lógica pedagógica. Por outro lado, no caso das oficinas clandestinas, são portas fechadas e dificilmente alguém pode lá entrar, no entanto, acho que isso tem tendência a diminuir ou a acabar, porque antes tínhamos automóveis que eram mecânica e eletricidade «pura e dura» e agora as coisas são diferentes”.

“Se uma oficina não estiver digitalizada, provavelmente já morreu e não sabe”
Relativamente às oportunidades e prioridades que a ANECRA identifica para as oficinas independentes em 2025 e nos próximos anos, Roberto Gaspar refere que “é capacitarem-se cada vez mais. O futuro será dos operadores que tiverem melhor capacidade de dar resposta ao setor. Os que souberem ter melhor gestão, que façam melhor planeamento, que tenham melhores ferramentas de software e um pessoal melhor capacitado terão a oportunidade, os outros vão ficar para trás. Por isso, no ano passado fizemos uma parceria com a universidade Nova School de Carcavelos, em que estão outras entidades multinacionais, como a NOS ou a SONAE, num programa a pensar na credenciação das PME, que é a maioria do tecido económico em Portugal. A maior parte das vezes a empresa foi fundada por pessoas com determinada valência, depois foi crescendo deixando-as com déficit de gestão. Aquilo que a Nova pensou foi fazer um programa híbrido, uma parte presencial e outra online, muito direcionado para as PME, focado na dotação de meios para que as empresas sejam melhores e mais eficazes. Hoje em dia já temos um conjunto de umas dezenas de associados inscritos no programa que está a decorrer e que será feito ao longo de 18 meses”, explica.

Roberto Gaspar olha para a digitalização… saiba como na edição impressa ou online da Revista TOP100 Oficinas, aqui.