ANECRA debate futuro num setor em rápida transformação

O 19.º Encontro Nacional da Reparação Automóvel, organizado pela ANECRA, teve lugar no sábado, 18 abril, no Hotel Solverde, em Espinho. Decorreu sob o mote “Rumo a um futuro mais inteligente” e reuniu profissionais da reparação, distribuição de peças e entidades ligadas ao pós-venda. Ao longo da manhã foram debatidos alguns dos temas mais relevantes e estratégicos para o futuro do pós-venda automóvel em Portugal
A sessão de abertura contou com o discurso de boas-vindas de Alexandre Ferreira, presidente da direção da ANECRA, seguido de uma intervenção de Roberto Gaspar, secretário-geral da associação, que sublinhou a importância de eventos como este para analisar os desafios e oportunidades que estão a transformar o setor, num contexto marcado pela eletrificação, digitalização e crescente complexidade tecnológica.
Seguiu-se intervenção de Tiago Ribeiro, managing director da Solera Portugal, que destacou a transformação profunda do setor automóvel, impulsionada pela inovação tecnológica e pelo uso estratégico de dados. O responsável sublinhou que os carros chineses já competem em qualidade com os europeus, beneficiando de ciclos de produção mais rápidos e alinhados com um consumidor cada vez mais exigente e participativo. Neste contexto, a capacidade de recolher, tratar e interpretar dados torna-se crítica, pois informação incorreta gera decisões erradas.
Tiago Ribeiro enfatizou a importância da integração de plataformas para eliminar tarefas repetitivas e aumentar a eficiência operacional, permitindo que os recursos humanos se concentrem em atividades de maior valor. Através de ecossistemas interligados — oficinas, seguradoras e frotas — é possível gerar conhecimento em larga escala e apoiar decisões mais rápidas e precisas. Exemplos práticos incluem orçamentação automática com recurso a imagens e inteligência artificial, processos de avaliação de danos em minutos e experiências mais transparentes no rent-a-car.
O futuro, segundo o responsável, assenta na colaboração entre homem e máquina, na centralidade do cliente e na sustentabilidade. A economia circular, a reutilização de peças e a redução de emissões são já uma realidade crescente. Paralelamente, surgem oportunidades no domínio dos veículos elétricos, nomeadamente na reparação de baterias. Em suma, dados, tecnologia e sustentabilidade serão os pilares de competitividade no setor.
Mercado das peças entra numa nova fase
“Os Novos Desafios do Mercado das Peças” foi o tema escolhido para o primeiro painel do Encontro, que teve como oradores: Joaquim Candeias – Managing Director do Bilstein Group Portugal; Miguel Melo – Administrador da MCOUTINHO Peças; Nuno Wheelhouse Reis – Administrador da REDEINNOV; Mariana Martins – Head of Sales & Marketing da B-PARTS e Vitor Pereira – Presidente da ANCAV. O painel foi moderado por Pedro Barros – CEO da TIPS4Y e focou-se na forma como a eletrificação e os novos sistemas eletrónicos estão a mudar o mix de produto e o negócio das peças.
Os oradores convergiram na ideia de que o setor do pós-venda automóvel vive um tempo de enorme incerteza, marcado por crises sucessivas, instabilidade geopolítica, ruturas nas cadeias de abastecimento, subida do custo das matérias-primas, da energia e do transporte. Essa falta de previsibilidade dificulta a gestão de stocks, pressiona distribuidores, oficinas e seguradoras e acaba inevitavelmente por refletir-se no preço final das peças e da reparação.
Ao mesmo tempo, foi sublinhado que esta volatilidade obriga todos os operadores a repensar processos, parceiros e modelos de negócio, tornando ainda mais importante trabalhar com fornecedores de confiança, capazes de garantir disponibilidade, qualidade e serviço.
Outro dos pontos centrais do debate foi a distinção entre preço e valor. Vários intervenientes defenderam que olhar apenas ao preço da peça é redutor, porque o verdadeiro custo da operação inclui erros de identificação, devoluções, atrasos na entrega, imobilização da viatura, insatisfação do cliente e ineficiências administrativas e logísticas. Nesse sentido, o valor está na capacidade de entregar a peça certa, no momento certo, com apoio técnico, resposta rápida, garantia e acompanhamento comercial. É esse conjunto de serviços que diferencia os operadores tradicionais face a plataformas puramente transacionais e que sustenta relações duradouras com as oficinas.
A logística mereceu igualmente destaque, com a constatação de que o atual modelo de múltiplas entregas diárias tende a tornar-se cada vez menos sustentável, quer por razões de custo, quer por exigências ambientais e regulatórias. A pressão para reduzir rotas, otimizar entregas e planear melhor as reparações deverá crescer, sendo os dados e a tecnologia instrumentos essenciais para antecipar necessidades e organizar melhor toda a cadeia.
Os oradores abordaram também a transformação da oferta provocada pela eletrificação do parque automóvel. Embora o peso dos veículos elétricos ainda seja limitado no parque circulante, a sua relevância já se faz sentir na evolução das gamas, na formação técnica, no diagnóstico e na procura de novos componentes. A crescente presença de sistemas eletrónicos e a necessidade de soluções específicas reforçam a ideia de que o setor já não vende apenas peças, mas soluções integradas de mobilidade.
Por fim, a economia circular surgiu como uma tendência estrutural e não conjuntural. A reutilização, reconstrução e remanufatura de peças, apoiadas por plataformas digitais que tornam a oferta mais acessível e transparente, ganham importância por razões económicas, operacionais e de sustentabilidade. O mercado das peças entra, assim, numa nova fase, em que eficiência, diversificação, tecnologia e valor acrescentado serão decisivos para responder aos desafios do presente e aproveitar as oportunidades do futuro.
Valorizar os profissionais do setor
“Os Desafios de um Setor em Profunda Transformação” foi o último painel do Encontro e contou com os seguintes oradores: Pedro Barros – CEO da TIPS4Y, Tiago Rocha – Gerente da Tiagorochauto; Rui Marques – Diretor Geral da Auto Marques e Alexandre Barbosa – Automotive Business Consultant da AB Consultoria.
Neste painel, moderado por Roberto Gaspar – Secretário-Geral da ANECRA, os oradores foram unânimes em identificar a falta de mão de obra qualificada como uma das maiores pressões sobre as oficinas automóveis. A dificuldade em encontrar técnicos preparados, somada à incapacidade de os reter perante a forte concorrência do mercado, está hoje no centro das preocupações dos operadores, de norte a sul do país, incluindo as regiões insulares.
A esta escassez juntam-se custos operacionais cada vez mais pesados — energia, combustíveis, ferramentas, licenças de software e atualização tecnológica — num contexto em que clientes, seguradoras e gestoras continuam muitas vezes a querer preços de há vários anos, ignorando que a realidade do negócio mudou profundamente. O desafio, como foi sublinhado, é conseguir pagar as contas, manter rentabilidade e ainda criar capacidade de investimento. Nas ilhas, esta pressão é ainda mais evidente, devido à menor disponibilidade de recursos humanos especializados, aos custos agravados com fornecedores e à dificuldade de repercutir no preço final a subida dos encargos.
Foi também referido que a crescente complexidade tecnológica dos veículos aumenta o tempo médio de reparação e exige das oficinas uma abordagem mais profissional e mais focada na gestão. Já não basta dominar a mecânica: é preciso rentabilizar processos, controlar cada minuto, gerir equipas, selecionar melhor os acordos comerciais e ter a coragem de recusar parcerias que não garantam margem suficiente.
Outro dos temas centrais do debate foi precisamente a necessidade de o dono da oficina deixar de estar apenas mergulhado no operacional e assumir um verdadeiro papel de gestor. Muitos empresários do setor nasceram como técnicos e continuam demasiado absorvidos pela oficina, sem tempo ou preparação para olhar de forma estratégica para áreas como contratação, retenção de talento, remuneração, organização interna e rentabilidade. Essa fragilidade de gestão acaba por comprometer o retorno do investimento feito em equipamentos, formação e instalações.
Paralelamente, foi destacado o problema geracional. Durante muitos anos, as profissões ligadas à reparação automóvel foram desvalorizadas, tanto socialmente como no sistema de ensino, criando-se a ideia de que apenas determinados percursos académicos eram desejáveis. Hoje, o setor paga essa fatura, com dificuldade em atrair jovens para uma atividade que, paradoxalmente, tem procura, potencial de progressão e possibilidade real de bons rendimentos.
Os intervenientes defenderam, por isso, uma mudança de narrativa: é necessário valorizar a profissão, comunicar melhor as oportunidades existentes e aproximar escolas, empresas e novas gerações. A transformação do setor é profunda, mas ficou claro que o futuro das oficinas dependerá menos das máquinas e mais da capacidade de atrair pessoas, gerir bem e dar valor a uma profissão essencial para a mobilidade.
Assista aqui a alguns momentos fotográficos deste encontro.




