AFIA alerta para risco de perda de competitividade no setor

A AFIA, enquanto membro da CLEPA alertou para o risco crescente de perda de competitividade da indústria de componentes automóveis na Europa, defendendo medidas urgentes para conter custos e proteger a base produtiva do setor
Os fornecedores europeus de componentes para a indústria automóvel continuam a desempenhar um papel determinante nas cadeias de valor globais, mas enfrentam hoje desafios acrescidos. A pressão sobre a rentabilidade, alguns movimentos de ajustamento de capacidade produtiva e uma concorrência internacional cada vez mais intensa, em particular da China, estão a condicionar a capacidade do setor para concretizar plenamente o seu potencial de investimento e de inovação.
De acordo com a mais recente edição do CLEPA Pulse Check, um inquérito semestral de confiança empresarial, os resultados apontam para desafios estruturais de competitividade que exigem uma resposta europeia concertada.
Benjamin Krieger, secretário-geral da CLEPA, que representa os fornecedores europeus e associações empresariais continua a afirmar que “a União Europeia continua a ser uma localização atrativa para investir e produzir”. Mas é essencial “reforçar essa atratividade através da redução dos custos de eletricidade, da simplificação administrativa e da melhoria das condições de financiamento. Em paralelo, políticas de conteúdo local podem ajudar a garantir que o conhecimento crítico permanece na Europa. Um enquadramento regulatório flexível e neutro do ponto de vista tecnológico irá estimular a inovação e acelerar a descarbonização do transporte rodoviário. Em conjunto, estas medidas permitirão assegurar uma transição bem-sucedida e manter o setor automóvel europeu numa trajetória de crescimento sustentável”, acrescentou.
José Couto, presidente da AFIA e membro da direção da CLEPA, reafirma aquilo que foi dito no 12.º encontro da AFIA, que decorreu em Vila Nova de Gaia no início de novembro, e que confirmava que “os sinais vindos deste inquérito são particularmente relevantes para Portugal, cuja base industrial automóvel é altamente integrada nas cadeias de valor europeias. Os fornecedores portugueses de componentes têm vindo a investir de forma consistente em inovação, na qualificação dos recursos humanos e em projetos de descarbonização, o que explica o forte desempenho exportador do setor”.
José Couto, sublinhou ainda que “para preservar e reforçar estes resultados, é fundamental dispor de um quadro europeu que não penalize o custo da energia, que assegure regras equilibradas de concorrência internacional e que incentive a inovação. Sem uma resposta coordenada a nível europeu, corremos o risco de ver gradualmente condicionadas capacidades produtivas e tecnológicas construídas ao longo de décadas, com impactos sobre o emprego qualificado e sobre a competitividade das exportações nacionais”.
Rentabilidade sob pressão, mas com foco no investimento
O inquérito CLEPA Pulse Check indicou que a maioria dos fornecedores trabalha hoje com margens de lucro abaixo dos 5%, patamar considerado apenas suficiente para sustentar, com conforto, os investimentos necessários em tecnologia, qualificações e capacidade produtiva, o que pode limitar projetos futuros de expansão, de investigação e de desenvolvimento.
Esta situação de pressão sobre as margens poderá prolongar-se até 2026, caso não sejam adotadas medidas adicionais de apoio à competitividade. Esta perspetiva reforça a urgência de criar condições que permitam às empresas manter os investimentos que estão na base da transição verde e digital da mobilidade.
Europa Ocidental: necessidade de preservar a pegada produtiva
O aumento dos custos e o abrandamento do crescimento da procura têm levado várias empresas a reavaliar a distribuição geográfica da sua capacidade produtiva. Além disso, uma proporção significativa dos fornecedores admitiu ajustar, nos próximos cinco anos, a capacidade instalada na Europa Ocidental, ao mesmo tempo que identifica oportunidades de crescimento noutras regiões.
Para a CLEPA e a AFIA, este contexto reforça a necessidade de a Europa melhorar as suas condições de atratividade, assegurando um ambiente de negócios previsível, competitivo e favorável ao investimento de longo prazo.
A competitividade surge hoje como o principal desafio estratégico para 86% dos fornecedores, uma subida de 14 pontos percentuais face ao último inquérito realizado na primavera. A desaceleração da procura em alguns segmentos e a adoção mais rápida de novas tecnologias em determinados mercados concorrentes estão a intensificar a pressão sobre a base industrial europeia, tornando ainda mais urgente a implementação de políticas de apoio ao investimento, à inovação e à transição energética.
Concorrência da China e necessidade de condições equilibradas
A concorrência dos fornecedores chineses tem vindo a ganhar expressão na Europa, beneficiando de vantagens de custo, de apoios significativos e de uma base industrial interna robusta. Atualmente, cerca de 69% dos fornecedores europeus referem já enfrentar concorrência relevante de importações provenientes da China, uma subida de 12 pontos percentuais face ao inquérito da primavera. Três em cada quatro empresas esperam que esta pressão competitiva continue a crescer.
Assim, este contexto não deve ser encarado apenas como uma ameaça, mas como um incentivo adicional para reforçar a capacidade de inovação e de diferenciação tecnológica da indústria europeia. Ao mesmo tempo, é essencial garantir condições de concorrência equilibradas a nível global, assegurando que as regras comerciais, ambientais e sociais são aplicadas de forma justa entre regiões.
A nota divulgada pela CLEPA, e a qual conta com o apoio da AFIA, pretendeu contribuir para o debate europeu sobre o futuro da indústria automóvel, num momento em que decorre uma transformação profunda da mobilidade. Com as políticas certas, os fornecedores de componentes na Europa – e em particular em Portugal – têm todas as condições para continuar a ser um motor de investimento, emprego qualificado e exportações.




