Inclusão no pós-venda automóvel ainda dá os primeiros passos!

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O pós-venda automóvel é um dos setores mais intensivos em mão de obra em Portugal, mas a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua a ser pouco visível. Entre potencial, desafios e experiências concretas, o setor começa lentamente a dar alguns passos, ainda longe de uma prática generalizada

Oficinas, redes de assistência, distribuição de componentes, consumíveis e equipamentos, bem como a logística e outros serviços associados ao pós-venda automóvel, compõem um ecossistema vasto e heterogéneo, responsável por empregar milhares de profissionais em todo o país. Trata-se de um setor essencial para a manutenção e funcionamento do parque automóvel nacional e, simultaneamente, fortemente dependente de mão de obra qualificada e especializada. Nos últimos anos, este universo tem enfrentado desafios crescentes. O envelhecimento da força de trabalho, a dificuldade em atrair novos profissionais e a retenção de talento tornaram-se preocupações recorrentes entre empresas do setor. Ainda assim, temas como a diversidade das equipas e a inclusão de trabalhadores com deficiência continuam, em muitos casos, afastados das prioridades do dia a dia. A inclusão de trabalhadores com deficiência continua a ser um tema pouco discutido no setor, com reduzida divulgação de informação e escassa partilha de experiências concretas. Esta baixa visibilidade dificulta a disseminação de boas práticas e contribui para que as iniciativas existentes permaneçam pouco conhecidas. Apesar de se registarem alguns exemplos positivos, estes continuam a surgir de forma pontual, mais associados à iniciativa individual das empresas do que a uma abordagem estruturada e transversal ao setor.

O que se entende por pessoas com deficiência
As pessoas com deficiência incluem aquelas que apresentam incapacidades de longa duração de natureza física, mental, intelectual ou sensorial que, em interação com diversas barreiras, podem limitar a sua participação plena e efetiva na sociedade em condições de igualdade com as outras pessoas. Esta é a definição consagrada na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pelas Nações Unidas, e seguida em Portugal pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos. Este conceito baseia-se numa abordagem biopsicossocial da deficiência, que vai além da visão estritamente médica. Ou seja, a exclusão não resulta apenas das limitações individuais, mas sobretudo da forma como o meio físico, social e organizacional responde, ou falha em responder, à diversidade das pessoas.

Um retrato ainda desigual da inclusão laboral
De acordo com o Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, com base sobretudo em dados oficiais do Eurostat, complementado por estatísticas nacionais, a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho português continua a revelar desigualdades estruturais significativas, apesar de sinais claros de melhoria ao longo da última década. Na população em idade ativa (20–64 anos), a taxa de emprego das pessoas com deficiência tem vindo a crescer, situando-se em torno dos 64–65% em 2023. Ainda assim, permanece substancialmente inferior à taxa registada na população sem deficiência (80,8%), mantendo-se uma diferença superior a 15 pontos percentuais. Esta diferença reflete não apenas dificuldades no acesso ao emprego, mas também desafios associados à estabilidade laboral e à progressão profissional. Se olharmos para a evolução registada entre 2015 e 2023, constata-se que a taxa de emprego das pessoas com deficiência cresceu de forma mais expressiva do que a da população sem deficiência, tanto em Portugal (+13,3 pontos percentuais) como na média da União Europeia (+7,2 pontos percentuais). Este aumento, embora relevante, não foi suficiente para anular a diferença existente, que continua a marcar o acesso ao mercado de trabalho. Neste sentido, ganha particular relevo o enquadramento dos mecanismos públicos de apoio à contratação e à integração profissional.

As entidades que ligam empresas e candidatos
A ligação entre empresas e pessoas com deficiência é assegurada, em muitos casos, por associações e entidades de recrutamento que atuam na intermediação para o emprego e no apoio à integração profissional. Entre estas estruturas encontra-se a OED – Operação de Emprego para Pessoas com Deficiência, que apoia a colocação de pessoas com deficiência em diferentes setores de atividade. A Associação Salvador – Projeto Emprego desenvolve um trabalho semelhante, promovendo o contacto entre candidatos e empresas. Na área da reabilitação profissional, os Centros de Recursos para a Qualificação e Emprego (CRQE) apoiam a procura de emprego e colaboram com as empresas na definição de funções e na integração dos trabalhadores. Existem ainda plataformas de divulgação de oportunidades, como a Talent Portugal, bem como empresas de recrutamento de âmbito mais alargado, como a Randstad, que integram práticas de recrutamento inclusivo. Em conjunto, estas entidades funcionam como pontos de contacto entre candidatos e empresas, facilitando o acesso ao emprego e a adequação entre perfis profissionais e necessidades do mercado de trabalho.

Este artigo está disponível na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº227, aceda aqui.