Estudo de Canais GiPA 2025: Pós-venda cresce com veículos mais antigos

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O Estudo de Canais GiPA 2025 apresenta uma radiografia detalhada do atual panorama automóvel e do setor pós-venda em Portugal, revelando tendências que marcam uma nova era para a reparação automóvel. A análise mostra um mercado resiliente, dinâmico e em profunda transformação tecnológica, impulsionado tanto pelo envelhecimento do parque automóvel como pela crescente penetração dos veículos eletrificados

Os dados do estudo revelam que mais de 37% dos veículos em circulação têm 15 ou mais anos, demonstrando o envelhecimento estrutural do parque automóvel português. Ao mesmo tempo, observa-se uma clara mudança na composição energética das viaturas mais recentes: os veículos eletrificados (BEV, PHEV e HEV) já representam mais de 44% do parque com até três anos de idade, sinalizando o avanço irreversível da transição energética.

O diesel, outrora dominante, continua em queda acentuada, atingindo o mínimo histórico de 9% nos novos registos em 2024, enquanto as energias alternativas representam cerca de 57% das novas matrículas. Esta reconfiguração reflete o impacto das políticas ambientais, dos incentivos à eletrificação e da crescente consciência ecológica dos consumidores portugueses.

O aftermarket como motor de estabilidade
O estudo, que envolveu entrevistas presenciais a cerca de 800 profissionais de concessionários, oficinas independentes, oficinas de colisão, pneus, distribuição e lojas de peças, evidencia um momento positivo para o mercado pós-venda, sobretudo nas peças e serviços ligados à mecânica.

Vários fatores explicam esta vitalidade: o adiamento da compra de novos automóveis, o aumento do preço dos veículos novos, a redução do número de abates e o prolongamento da vida útil dos automóveis, cuja idade média de abate ultrapassa já os 20 anos. As Inspeções Obrigatórias anuais a partir dos 8 anos também incentivam reparações preventivas, reforçando o volume de atividade das oficinas.

O uso prolongado dos veículos, a intensificação das vendas de usados e o aumento do número de quilómetros percorridos são outros fatores que contribuem para o bom momento do setor. Em suma, o aftermarket português vive uma fase pujante, alicerçada na resiliência e capacidade de adaptação dos seus profissionais.

Digitalização e eletrificação: os novos pilares
A digitalização emerge como uma tendência incontornável. O setor, tradicionalmente conservador, vê-se agora obrigado a adotar ferramentas tecnológicas que otimizem a gestão oficinal, melhorem o atendimento e integrem novos modelos de negócio digitais. Paralelamente, a eletrificação dos veículos está a transformar a natureza das intervenções nas oficinas.

O que hoje ainda é um nicho — a manutenção e reparação de veículos elétricos — tornar-se-á, segundo o estudo, um eixo central de negócio nos próximos 10 a 15 anos. Esta transição exige investimento em formação especializada, requalificação técnica e atualização constante de equipamentos, uma vez que os sistemas elétricos e eletrónicos dos novos modelos exigem competências altamente qualificadas.

Outro fenómeno em rápida expansão é o das viaturas conectadas, que promete redefinir radicalmente a manutenção e reparação automóvel. A capacidade de aceder remotamente a veículos e realizar diagnósticos ou intervenções à distância abre novas oportunidades, mas também impõe desafios regulatórios e de cibersegurança.

Sustentabilidade e economia circular
O Estudo GiPA 2025 destaca igualmente a crescente importância da sustentabilidade ambiental no aftermarket. As oficinas e distribuidores estão cada vez mais envolvidos em práticas alinhadas com a economia circular, nomeadamente através da gestão eficiente de resíduos, da remanufactura e do reaproveitamento de peças.

As peças reconstruídas e usadas começam a ganhar expressão, e a tendência deverá acelerar nos próximos anos, especialmente entre os consumidores mais jovens e sensíveis ao preço e ao impacto ambiental. O estudo recomenda que as empresas do canal independente apostem decididamente neste segmento, ainda com peso residual, mas com enorme potencial de crescimento.

Por outro lado, as compras online de peças ainda enfrentam desconfiança por parte dos clientes, um fator que poderá limitar a expansão do comércio digital no curto prazo. Contudo, a crescente digitalização e a busca por conveniência poderão inverter este cenário a médio prazo.

Desafios e oportunidades do canal independente
A eletrificação trará inevitavelmente menos intervenções mecânicas tradicionais, já que os veículos elétricos têm menos componentes e menor necessidade de reparação, estimando-se uma redução de 12% nas operações do aftermarket no cenário mediano. Assim, a sobrevivência e o crescimento das oficinas independentes dependerão da sua capacidade de adaptação e diferenciação.

O estudo aponta quatro linhas estratégicas fundamentais:
1. Combinar a manutenção dos veículos de combustão com os serviços para veículos elétricos;
2. Investir fortemente na formação técnica dos colaboradores;
3. Garantir soluções de mobilidade aos clientes durante as reparações;
4. Promover práticas sustentáveis e por uma concorrência justa no setor.

Um setor em transição, mas preparado
O aftermarket português demonstra estar à altura dos desafios da mobilidade do futuro. Entre o envelhecimento do parque automóvel e a eletrificação crescente, o setor encontra-se numa posição estratégica, combinando tradição e inovação.

O Estudo de Canais GiPA 2025 confirma que, num contexto de mudança acelerada, o pós-venda em Portugal continua a ser um pilar de estabilidade económica, emprego e sustentabilidade ambiental.

Este artigo está disponível na edição impressa e online da Revista TOP100 Oficinas 2025. Aceda aqui.