Comércio de pneus: A reinvenção das oficinas de pneus!

As oficinas de pneus estão a atravessar um ponto de viragem. Tradicionalmente vistas como meros pontos de venda e montagem, as oficinas de pneus enfrentam hoje uma mudança estrutural na sua atividade, que exige investimento, visão estratégica e uma reformulação dos modelos de negócio. Aqueles que forem capazes de se adaptar, poderão transformar-se em players centrais na nova cadeia de valor da mobilidade
O comércio de pneus e dos serviços automóveis são atividades muito dinâmicas e competitivas. Estamos a assistir a uma consolidação de proporções gigantescas e a tecnologia está a avançar a um ritmo vertiginoso. O conceito de oficina “familiar” é algo raro hoje em dia, e ser uma oficina independente significa ser um líder em tecnologia. Mais flexíveis, as oficinas independentes conseguem agora rentabilizar a agilidade como uma vantagem importante, mas para isso devem ter em atenção diversos fatores: sala de receção limpa e moderna, instalações bem iluminadas, funcionários cordiais com uniformes aprumados, tecnologia ao alcance de todos os funcionários, que devem sempre tentar melhorar a experiência do cliente. Este é o preço a pagar para fazer parte do negócio de manutenção e reparação automóvel, onde se incluem os serviços de pneus. Não é fácil identificar a transição, mas ao focar-se na guerra de preços e no modelo de corte de despesas ao máximo, a empresa perde a sua vantagem competitiva. Os bons funcionários partem e os maus funcionários vão ficando.
Mudança de paradigma
A rentabilidade de uma oficina de pneus não depende só do volume de pneus vendidos, mas sim da capacidade de oferecer um serviço completo, moderno e eficiente. Os donos de oficinas que investirem em formação, tecnologia e experiência do cliente estarão melhor preparados para crescer, mesmo num mercado em mudança. Os proprietários de pequenas oficinas que não se encontrem em posição de investir fortemente nos principais recursos da empresa, nos seus funcionários e no equipamento, vão ser ultrapassados e qualquer tipo de recuperação será praticamente impossível. Trata-se de uma oportunidade para profissionalizar o setor. A mudança é sempre difícil, mas a mudança é agora constante. Devíamos procurar a forma mais rentável de nos adaptarmos pois não é aceitável resistir à mudança.
Fatores de mudança
A transição para veículos elétricos (VE) está a reformular profundamente as necessidades de manutenção automóvel. Embora os VE exijam menos manutenção mecânica do que os veículos com motores de combustão interna, o desgaste dos pneus pode, paradoxalmente, ser mais elevado devido ao maior peso das baterias e à aceleração instantânea. Isto obriga os retalhistas a adaptarem o seu portefólio a pneus específicos para VE, com características como baixa resistência ao rolamento, ruído reduzido e maior durabilidade. O consumidor moderno espera experiências digitais fluidas, e os retalhistas de pneus têm de responder com plataformas de e-commerce, agendamento online e sistemas de recomendação baseados em inteligência artificial. A presença digital tornou-se um elemento crucial para a sobrevivência, e quem não estiver online, corre o risco de desaparecer. Ao mesmo tempo, cresce a importância de sistemas logísticos integrados, capazes de garantir entregas e montagens rápidas, muitas vezes em menos de 24 horas.
Outra mudança marcante é o crescimento dos serviços móveis de montagem e substituição de pneus ao domicílio ou no local de trabalho. Esta conveniência extrema responde à procura de soluções rápidas, seguras e eficientes, reforçada por novos hábitos de consumo. Neste novo paradigma, a oficina tradicional perde espaço para unidades móveis equipadas com tecnologia de diagnóstico avançada. A pressão ambiental leva os retalhistas a integrarem práticas mais sustentáveis, como o reaproveitamento, a recauchutagem e a reciclagem de pneus usados. Além disso, o consumidor está mais consciente do impacto ecológico dos pneus — desde os materiais utilizados até à forma como são descartados. As empresas que liderarem nesta área poderão diferenciar-se e captar segmentos de mercado sensíveis à sustentabilidade.
A evolução para modelos de mobilidade como serviço (MaaS), incluindo frotas partilhadas, veículos autónomos e soluções de subscrição, altera profundamente o cliente-alvo dos retalhistas de pneus. Em vez de consumidores individuais, passa a haver uma concentração de serviços em operadores de frotas, com necessidades diferentes e expetativas mais exigentes em termos de gestão, monitorização remota e manutenção preventiva.
Preparar a empresa para o futuro
Aprenda a tornar o seu negócio eficiente, bem-sucedido e, acima de tudo, rentável. Fale com quem sabe de gestão e marketing para o ajudar a identificar as suas oportunidades e a maximizar o seu potencial para ser mais bem-sucedido a nível profissional e pessoal. O objetivo não é dar formação aos colaboradores sobre como vender mais pneus, mas ensiná-los a melhorarem os seus conhecimentos e serem mais profissionais. A maioria dos proprietários de oficinas de pneus aprenderam os truques do ofício com o pai, o avô, ou com uma empresa de maior dimensão do comércio de pneus. Em seguida compraram o negócio à família ou estabeleceram-se por conta própria. Geralmente trata-se de uma oficina pequena, e nos primeiros meses o proprietário desempenha as funções de empresário, patrão, empregado de limpeza, mecânico em part-time, responsável de RH, e qualquer outra função que seja necessário desempenhar. Após alguns anos sem receber salário, a empresa começa a fazer algum dinheiro. E então começa a crescer. Contrata alguns técnicos, alguns vendedores e algum pessoal para o escritório. O problema é que o proprietário geralmente continua a envolver-se em todo o trabalho em vez de o gerir. Isto representa um problema. O proprietário torna-se a solução efetiva para todos os problemas na oficina. E assim que a oficina atinge uma faturação de cerca de meio milhão de euros, isto traduz-se numa pressão imensa, e o proprietário sente que tem de estar em todo o lado, a toda a hora. É um cenário impossível. Não pode tirar um dia de folga, não pode ir de férias, não pode descansar. O que está então a faltar? Para não nos alongarmos demasiado, podemos resumir o problema em duas questões essenciais: Confiança e Planeamento.
Confiança na equipa
Não é fácil assegurar que a experiência do seu cliente é excelente. É difícil garantir que contrata os melhores funcionários de acordo com os recursos da sua empresa. Mas nada disso significa que deva descurar o que é importante. O que realmente o distingue da concorrência são as pessoas que trabalham na sua oficina. E curiosamente, o importante não é o volume de conhecimentos sobre pneus e automóveis que possuem. Estes conhecimentos podem ser ensinados e aprendidos. O importante é aquilo que não pode ser ensinado. Os funcionários preocupam-se? Ouvem? Agem como se quisessem fazer tudo corretamente? Quando foi a última vez que um cliente se queixou sobre o facto de um colaborador não saber o suficiente? Qual a última vez que um cliente se queixou sobre a forma como foi tratado? São questões que o proprietário deve colocar para conhecer melhor os seus funcionários. A única forma de um proprietário confiar que os seus funcionários façam um bom trabalho é permitir que façam o trabalho na sua presença e ser verdadeiramente um supervisor, assegurando que o trabalho está a ser realizado mantendo o alinhamento com os valores da empresa. Isto exige tempo. Uma vez que a confiança seja estabelecida, psicologicamente, o proprietário consegue afastar-se um pouco para começar a concentrar-se em algo que merece toda a sua atenção: o futuro, não o presente. Sem confiança, o proprietário continuará a estar na loja 365 dias por ano. Uma receita para o desastre.
O presente artigo está disponível na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº226, consulte aqui.




