As Tendências do Aftermarket Português

01 - Tendencias aftermarket portugues

O setor pós-venda automóvel português vive uma das maiores transformações da sua história. O que durante décadas foi um mercado relativamente estável e previsível, tornou-se um ecossistema altamente tecnológico, digital, competitivo e exigente. Nos próximos cinco a dez anos, o aftermarket português será inevitavelmente mais digital, mais eficiente e mais sustentável

A eletrificação, a digitalização, a entrada de novos players internacionais, a evolução das expectativas dos consumidores e a necessidade de operar com maior eficiência e sustentabilidade alteraram profundamente o modelo de negócio de distribuidores, oficinas, fabricantes e redes. Neste contexto, compreender as tendências estruturantes do futuro não é apenas um exercício académico: é o ponto de partida para garantir a competitividade das empresas nos próximos cinco a dez anos. Este artigo identifica as forças transformadoras que irão moldar o aftermarket português e apresenta uma visão integrada sobre como o setor pode preparar-se para a próxima década. Compreender estas forças transformadoras já não é uma opção, mas sim um requisito para garantir competitividade e relevância nos próximos cinco a dez anos.

Eletrificação e nova estrutura do parque automóvel
Entre todas as tendências que moldarão o futuro do pós-venda, a eletrificação destaca-se como uma das mais determinantes. A hibridização da frota cresce rapidamente, os veículos elétricos ganham espaço e a presença de baterias de alta tensão, sistemas de gestão térmica, software integrado e sensores ADAS tornou-se a nova norma. Esta evolução redefine completamente as exigências técnicas do pós-venda. As oficinas precisam de dominar protocolos de segurança HV, investir em equipamentos específicos, compreender plataformas eletrónicas complexas e desenvolver competências em diagnóstico avançado. Embora a eletrificação reduza algumas operações recorrentes típicas dos motores térmicos, cria novas áreas de especialização com maior valor acrescentado, desde a manutenção de sistemas de alta tensão até à atualização de software e calibração de sensores. É, por isso, uma ameaça para quem não se adaptar, mas uma oportunidade extraordinária para quem investir a tempo.

A digitalização da oficina e da cadeia de valor
A digitalização é outro pilar essencial desta mudança. O cliente atual é informado, impaciente, compara preços em segundos e espera transparência total ao longo de toda a jornada de serviço. Oficinas e distribuidores que ainda dependem de processos manuais já não conseguem acompanhar este novo ritmo. Sistemas de gestão (DMS), catálogos digitais, CRM preditivos, plataformas de telemática, processos automatizados de encomenda e ferramentas de diagnóstico remoto tornam-se indispensáveis. A digitalização deixa de ser apenas uma ferramenta operacional para se tornar numa verdadeira mudança cultural: o mercado passa a operar com dados, previsibilidade, métricas e eficiência. A transparência e a velocidade trazidas pelo e-commerce — tanto B2B como B2C — alteraram definitivamente o relacionamento entre fabricantes, distribuidores, oficinas e consumidores. Ganha quem consegue integrar a tecnologia na operação diária, mas também quem combina essa tecnologia com proximidade humana, aconselhamento qualificado e serviço especializado. O equilíbrio entre digital e humano será uma das chaves da fidelização no futuro do pós-venda.

Talento e novas competências
Contudo, nenhuma destas transformações tecnológicas acontecerá sem pessoas preparadas para as liderar. O talento tornou-se o principal fator crítico do setor. Há escassez de técnicos qualificados e o profissional do futuro precisa de dominar três dimensões essenciais: competências técnicas avançadas, como diagnóstico eletrónico, alta tensão, calibração ADAS, telemática e gestão de software; competências digitais, incluindo o uso pleno de DMS, CRM, plataformas técnicas, gestão de cibersegurança e interpretação de dados; e competências humanas, como comunicação clara, gestão da relação com o cliente, empatia e capacidade de explicar intervenções complexas de forma compreensível. Atrair jovens para o setor implica mudar a perceção pública da profissão, mostrando que a oficina moderna é um ambiente tecnológico, sustentável, ligado à mobilidade do futuro e com oportunidades reais de carreira. Parcerias com escolas técnicas, programas de formação contínua e percursos profissionais estruturados serão vitais na renovação geracional do pós-venda.

O impacto do automóvel chinês
Outra força transformadora incontornável é a entrada massiva do automóvel chinês no mercado europeu. Estes fabricantes apresentam modelos altamente competitivos, geralmente integrados em ecossistemas fechados que combinam veículo, software, manutenção e plataformas digitais. Tal integração pode dificultar o acesso do pós-venda independente a dados e peças, mas também abre portas a novas formas de colaboração e a potenciais parcerias estratégicas. O aftermarket português terá de se preparar para conviver com esta realidade, garantindo autonomia, capacidade técnica e mecanismos de negociação que permitam continuar a reparar estes veículos em condições equitativas.

Inteligência artificial e manutenção preditiva
A inteligência artificial será igualmente um motor decisivo de transformação. A IA irá antecipar falhas antes que ocorram, prever necessidades de manutenção, identificar a avaria provável antes de o veículo chegar à oficina, otimizar stocks, automatizar processos administrativos, personalizar a comunicação com o cliente e tornar toda a cadeia mais eficiente e mais lucrativa. Todas as fases do pós-venda — seleção da oficina, marcação, transporte, diagnóstico, execução, encomenda de peças, pagamento e acompanhamento — serão impactadas. As empresas que adotarem a IA mais cedo irão ganhar vantagem competitiva clara, enquanto as restantes poderão enfrentar dificuldades crescentes.

O papel decisivo dos grupos de distribuição
Dada a complexidade crescente da tecnologia automóvel, a colaboração tornar-se-á essencial. O futuro do pós-venda será construído através de ecossistemas, redes cooperativas e alianças estratégicas que combinem a força dos fabricantes, a experiência dos distribuidores e a proximidade das oficinas. Os grupos de distribuição, em particular, assumem um papel determinante neste novo cenário: promovem a profissionalização do setor, implementam modelos de gestão eficientes, centralizam compras, otimizam logística, oferecem formação técnica estruturada e garantem que oficinas independentes consigam competir num mercado altamente exigente. A tendência de consolidação continuará a intensificar-se, tanto em movimentos horizontais — entre distribuidores — como verticais, envolvendo fabricantes, grupos e redes oficinais. Escala, integração e capacidade tecnológica serão fatores decisivos para a sobrevivência das empresas.

Sustentabilidade: da obrigação ao modelo de negócio
A sustentabilidade, por sua vez, deixou de ser um tema secundário para se tornar um eixo central do modelo de negócio. O pós-venda, por definição, já contribui para a redução do impacto ambiental ao prolongar a vida útil dos veículos. Mas o futuro exigirá muito mais do que isso: logística otimizada com menor pegada carbónica, utilização crescente de peças remanufaturadas, embalagens sustentáveis, processos de reciclagem mais eficientes, oficinas energeticamente responsáveis e métricas de controlo ambiental claras e comunicáveis ao cliente. A sustentabilidade será simultaneamente uma exigência dos consumidores, uma obrigação regulatória e uma fonte de diferenciação competitiva.

Não há novos negócios sem novos modelos
O aftermarket português tem todas as condições para se reinventar e assumir uma posição de liderança em mobilidade sustentável e conectada. Para isso, será necessário colaborar, digitalizar, especializar, diversificar e, sobretudo, investir em pessoas e conhecimento. Não há novos negócios sem novos modelos. O verdadeiro desafio do setor não é resistir à mudança, mas sim liderá-la com visão, competência e ambição. O futuro do pós-venda não será apenas tecnológico — será humano, estratégico e profundamente transformador. E Portugal tem todas as ferramentas para ser protagonista nesta evolução.

O presente artigo está disponível na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº226, consulte aqui.