Correspondência de cores no processo de repintura

Numa reparação de carroçaria em que foram substituídas e/ou reparadas diferentes peças, um bom indício para que o processo de repintura possa qualificar-se como correto é não ser possível distinguir as peças pintadas das que não o foram. Para conseguir isto, a tinta de acabamento aplicada, tanto nas peças reparadas como nas peças substituídas, deve ser indistinguível do resto das peças não afetadas
São várias as fases do processo de pintura que contribuem para conseguir uma boa uniformização do acabamento com o resto das peças não afetadas e que geralmente denominamos simplesmente como “uniformização da cor”, sendo que este é o aspeto fundamental, embora não sendo o único, visto que, nos acabamentos metalizados e perlados, para além da formulação da cor necessitar de ser adequada, também influenciará a forma de aplicação da tinta para conseguir o efeito de acabamento final, assim como as superfícies de base sobre as quais se apliquem as camadas de acabamento. Vamos rever estes fatores que influenciam a obtenção de uma boa “uniformização de cor” durante o processo de pintura numa oficina de reparação.
As fases em que nos vamos centrar são a preparação da base ou enchimento sobre o qual se aplica a pintura de acabamento e a identificação da cor do veículo.
Preparação da base
Mesmo que se comece a partir de uma boa preparação prévia: isto é, um bom recondicionamento das peças e uma boa aplicação e lixamento da base de preparação (massas e enchimentos), uma má aplicação da tinta de acabamento pode arruinar o resultado final. Mas por muito boa que seja a aplicação do acabamento, nunca poderá corrigir os defeitos da preparação prévia. Para tal, de forma a que a tinta de acabamento se encontre em todo o seu esplendor, para além de uma boa nivelação conseguida através de um bom recondicionamento da chapa e do seu posterior ajuste com a aplicação de massa, deve aplicar-se uma última camada de enchimento que sele as camadas anteriores e proporcione uma superfície lisa, compacta e uniforme, sobre a qual a tinta de acabamento poderá adquirir o acabamento e brilho final desejado. Aliás, a cor desta camada de base (o enchimento) também irá influenciar o efeito de cor que se irá obter. Ainda que se possa tratar de cores lisas ou convencionais; ou seja, que não sejam acabamentos perlados ou metalizados, por vezes e devido aos pigmentos utilizados, a camada de tinta de acabamento tem uma certa “transparência”, e a cor final obtida depende da cor da base sobre a qual é aplicada. Se este for o caso, deve ter em conta as informações do fabricante da tinta que está a utilizar, visto que na informação proporcionada para a formulação da tinta de acabamento pode também indicar o tom do enchimento que necessita utilizar; de forma geral é um tom cinzento, mais claro, ou mais escuro; ou uma determinada cor de enchimento, em função da cor de acabamento. Em ambos os casos, o enchimento necessário pode corresponder a um único produto, ou pode obter-se através da mistura, em distintas quantidades, de dois ou mais enchimentos de diferentes tonalidades.
Identificação da cor do veículo
Como deve saber, a identificação da cor do veículo é a chave no processo de “uniformização de cor”, por isso deve ter especial atenção em todos os passos seguidos para o desenvolvimento desta tarefa. Uma vez identificado o código da cor disponível no veículo, para a verificação deste e/ou eleição da variante ou alternativa mais adequada conforme a medição da cor com o espetrofotómetro, ou a comparação mais tradicional das amostras fornecidas pelo fabricante da tinta com o veículo a reparar, deve ter presente as seguintes precauções:
– As zonas do veículo não danificadas onde se realiza a medição da cor devem ser as que se encontram mais próximas da zona a reparar. Desta forma, se existirem repinturas anteriores que possam diferir ligeiramente da cor inicial, asseguramo-nos que é aplicado o tom mais parecido com a zona adjacente à reparação, que é onde mais interessa obter a correspondência de cores, visto que é com esta zona adjacente que queremos evitar qualquer diferença de cor.
– Para obter uma boa leitura da cor, ou se for o caso, realizar uma boa identificação visual, é preciso eliminar qualquer outro fator que possa distorcer a apreciação desta, que é o caso do brilho; ou seja, as superfícies devem oferecer o mesmo nível de brilho, por isso caso o veículo a reparar apresente uma certa degradação ou falta de brilho será necessário polir pelo menos a zona sobre a qual se realizará a medição da cor ou a comparação com as amostras.
– Falando em comparação de cor, este é um fenómeno que não depende apenas das substâncias que estamos a comparar, mas também depende da luz sobre a qual estamos a realizar a comparação: uma fonte de iluminação que não corresponda a uma curva de emissão o mais plana e uniforme possível em todo o espetro de luz visível poderá ocultar diferenças de tonalidade, por isso, ao realizar uma comparação visual, deve realizar sob a luz do dia com luminosidade suficiente e sem que esta atravesse cristais ou vidros que alterem a sua cor, ou caso se trate de fontes artificiais, que estas disponham de emissores de luz cujo espectro de emissão corresponda ao padrão da “luz de dia”.
– Tudo isto, e nos casos em que se realize a comparação das cores mediante uma apreciação visual das cores e determinando assim que existem diferenças entre a cor do veículo e das amostras com as quais se está a comparar, para poder interpretar em que consiste essa diferença e consequentemente perceber qual a fórmula alternativa mais adequada pela qual se iniciar, ou consoante o caso, se for necessário ajustar a fórmula de cor já preparada, deve verificar a cor com uma proveta pintada com a cor preparada, adicionando pequenas quantidades da cor base da mistura; é necessário ter conhecimentos básicos de colorimetria que permitam realizar uma boa interpretação das diferenças, assim como dispor da documentação de colorimetria que são fornecidas pelos fabricantes da tinta que permitem colocar num espaço imaginário cada uma das bases de mistura, o que permite perceber como atuarão cada uma delas se as adicionarmos sobre uma mistura de tinta preparada que se queira ajustar. Da mesma forma, caso utilize um espetrofotómetro na medição da cor, também será necessário possuir os conhecimentos necessários para compreender e interpretar a informação proporcionada pelo software da marca de tinta no que diz respeito aos gráficos comparativos, índice metamérico, etc.
– No que diz respeito à utilização de espetrofotómetros para a identificação das cores do veículo através da “medição” da cor com estes instrumentos, também é necessário ter em conta que, visto que a “medição” da cor que realizam estes aparelhos é baseada na leitura da radiação refletida pela amostra analisada, a temperatura da mesma pode contribuir para distorcer a leitura da cor; caso se encontre demasiado quente, também irá refletir radiação no espetro de infravermelhos, o que poderá alterar as medições que sejam efetuadas pelos sensores fotossensíveis do instrumento. É também importante recordar que antes de efetuar as medições é imprescindível que o instrumento tenha sido calibrado, para verificar o correto funcionamento.




