Elétricos usados vendem mais depressa em Portugal

Elétricos usados vendem mais depressa em Portugal

De acordo com os dados mais recentes do Observatório INDICATA, os veículos elétricos usados são atualmente a motorização com maior velocidade de venda em Portugal, impulsionados por uma correção significativa dos preços

Os veículos eléctricos a bateria tornaram-se, em julho, a motorização com maior velocidade de venda no mercado português de usados. Com um Market Days Supply de 55 dias, uma quota de 16,35% das vendas e apenas 12,33% do stock disponível, os BEV estão agora a ser absorvidos pelo mercado a um ritmo superior ao das restantes motorizações.

A edição de julho de 2026 do Observatório INDICATA concluiu, contudo, que esta melhoria não resulta de uma recuperação dos valores, mas de uma profunda correcção de preços que tornou os eléctricos usados economicamente acessíveis a um conjunto mais amplo de compradores.

O mercado europeu está a escolher, não a recuperar em bloco

O mercado europeu de veículos usados já não atravessa uma recuperação generalizada. A procura mantém-se activa, mas os compradores estão a tornar-se mais exigentes relativamente ao preço, aos custos de utilização e à diferença de valor face a um automóvel novo. As correcções mais acentuadas concentram-se agora nos segmentos onde existe maior oferta e onde a proposta económica é mais difícil de defender. O mercado aparenta maior estabilidade, mas essa estabilidade esconde uma selecção mais rigorosa entre modelos, motorizações, idades e níveis de preço.

Para fabricantes, retalhistas, frotas e operadores de remarketing, o principal desafio deixou de ser antecipar uma descida transversal do mercado. Passou a ser identificar os veículos cujo preço continua a ser sustentável perante alternativas novas cada vez mais competitivas.

Os BEV têm liquidez, mas continuam dependentes do preço

Na Europa, os BEV registaram em julho um Market Days Supply de 61 dias, mantendo uma rotação favorável quando comparados com a maioria das restantes motorizações. O indicador representa, ainda assim, um abrandamento face aos 47 dias registados em abril.
Ao mesmo tempo, o índice europeu de preços de retalho dos BEV situou-se em 63,31% do nível de janeiro de 2020, muito abaixo do máximo de 102,66% alcançado em 2022.

Os eléctricos usados estão, portanto, a encontrar compradores porque os preços já corrigiram de forma significativa, e não porque os valores estejam a recuperar. A questão central para os valores residuais não é ainda a reconstrução dos preços, mas a identificação do nível de preço necessário para preservar a liquidez.

Os apoios à aquisição, a fiscalidade automóvel, as condições de financiamento e o desenvolvimento da rede de carregamento continuam a favorecer a adopção do eléctrico. No entanto, essas mesmas medidas podem aumentar a pressão sobre o mercado de usados. Sempre que um BEV novo beneficia de descontos, incentivos ou financiamento subsidiado, um veículo quase novo tem de demonstrar uma vantagem de preço suficientemente clara.

Os veículos quase novos concentram o principal desequilíbrio

Os automóveis com menos de dois anos representam agora 39,36% do stock europeu de usados, mas apenas 31,55% das vendas. Em sentido contrário, os veículos com cinco ou mais anos representam 38,21% do stock.

A oferta disponível tornou-se, assim, mais jovem, sem que a procura tenha evoluído ao mesmo ritmo. Alimentados pelos retornos de frotas e pela pressão comercial no mercado de novos, os veículos quase novos estão particularmente expostos aos descontos praticados pelos fabricantes, às campanhas de financiamento e aos incentivos públicos.

Este desequilíbrio concentra o risco sobre os valores residuais precisamente nas viaturas onde o valor absoluto a proteger é mais elevado. Quanto menor for a diferença face ao automóvel novo, mais difícil se torna justificar o preço de um veículo já matriculado.

A electrificação europeia está a avançar sobretudo através dos híbridos

A transformação do mercado europeu não corresponde a uma substituição imediata dos motores de combustão por veículos totalmente eléctricos.
A gasolina continua a perder peso, tendo representado 37,93% das vendas europeias em Julho. Essa redução está a ser absorvida, em grande parte, pelas motorizações híbridas. Os híbridos ligeiros, ou MHEV, alcançaram 12,49% das vendas, acima dos 9,92% registados pelos BEV, enquanto os híbridos convencionais representaram 6,57%.

O mercado europeu está, deste modo, a electrificar-se de forma gradual. Muitos compradores procuram reduzir a exposição aos custos dos combustíveis sem assumirem imediatamente as exigências associadas ao carregamento de um veículo totalmente eléctrico

Os híbridos plug-in apresentam uma realidade mais fragmentada. A sua atractividade depende cada vez mais da fiscalidade, dos padrões de utilização e das políticas nacionais. Em alguns mercados, a redução dos benefícios fiscais enfraqueceu a procura por PHEV novos. A menor entrada de viaturas poderá, no futuro, limitar a oferta de usados e contribuir para uma estabilização gradual dos seus valores, embora sem garantir uma recuperação significativa.

Diesel mantém valor, mas perde capacidade de atracção imediata

A gasolina e o gasóleo continuam a constituir a base do mercado europeu de usados. O diesel conserva um índice de preços de retalho de 108,58% e mantém relevância em utilizações de elevada quilometragem e em determinados segmentos de maior dimensão.

A sua rotação é, contudo, mais lenta, com um Market Days Supply de 75 dias. A volatilidade dos preços dos combustíveis voltou a assumir um papel central na decisão de compra, reduzindo a atractividade imediata do diesel para os consumidores que ponderam simultaneamente o preço de aquisição e os custos correntes de utilização

O diesel continua a ser defensável quando a utilização é clara. Torna-se, porém, mais vulnerável quando o preço pedido não oferece uma compensação suficiente perante os custos de utilização percepcionados pelo comprador.

A Europa continua a corrigir a várias velocidades

Os mercados nacionais permanecem profundamente diferenciados. O Reino Unido apresenta um índice de preços de 103,67%, num contexto em que a entrada de veículos de emissões zero no mercado de novos não garante uma absorção equivalente no mercado de usados.
França encontra-se muito próxima do nível de Janeiro de 2020, com um índice de 100,21%. Nos mercados nórdicos, a pressão é mais evidente: Dinamarca regista 91,19%, Noruega 93,72% e Finlândia 86,82%.

Estes resultados mostram que um mercado de veículos eléctricos novos mais maduro não protege automaticamente os valores dos usados. Quando os retornos de viaturas excedem a capacidade de absorção local, a pressão sobre os preços pode intensificar-se.

A Polónia apresenta uma trajectória diferente, com um índice de 110,19%, confirmando que não existe um único mercado europeu de usados, mas vários mercados nacionais a corrigir em ritmos distintos.

Portugal transforma a correcção dos BEV em crescimento de mercado

Em Portugal, os veículos eléctricos usados representam 16,35% das vendas, apesar de corresponderem apenas a 12,33% do stock. A quota de vendas supera a quota de oferta em mais de quatro pontos percentuais, o desequilíbrio mais favorável entre as principais motorizações.

Há dois anos, os BEV representavam apenas 6,67% das transacções. A sua quota mais do que duplicou, enquanto o peso no stock aumentou de forma bastante mais moderada, de 8,65% para 12,33%.

A procura está, portanto, a crescer mais rapidamente do que a oferta disponível.

Esta evolução foi acompanhada por uma correcção profunda dos valores. O índice de preços de retalho dos BEV encontra-se em 77,30% do nível de janeiro de 2020. Essa descida não bloqueou o mercado. Pelo contrário, coincidiu com a redução do Market Days Supply para 55 dias, o valor mais baixo entre todas as motorizações.

Os eléctricos usados não se tornaram apenas mais baratos. Tornaram-se acessíveis a uma parte significativamente maior do mercado. “A evolução portuguesa mostra que existe procura efectiva por veículos eléctricos usados quando o preço corresponde à realidade económica dos compradores. Os BEV são hoje a motorização com maior velocidade de rotação, mas essa liquidez foi conquistada através de uma correcção profunda dos valores. O desafio para o sector é preservar esta procura sem comprometer a sustentabilidade dos valores residuais”, afirmou o Regional Head of RV Forecast e Market Expert do INDICATA, Yoann Taitz.

Diesel continua a liderar, mas já não define a direcção do mercado português

O diesel continua a ser a principal motorização no mercado português de usados, com 33,31% das vendas, mas perdeu mais de 14 pontos percentuais desde Julho de 2024. A sua quota de stock, de 35,18%, permanece ligeiramente acima da procura, enquanto o Market Days Supply se situa nos 83 dias. Os valores mantêm-se relativamente resilientes, com um índice de preços de 101,32% face a Janeiro de 2020, mas a liquidez e a relevância comercial estão a diminuir. A gasolina apresenta uma posição mais equilibrada, representando 29,25% das vendas e 29,99% do stock, com um Market Days Supply próximo dos 75 dias e um índice de preços ainda forte, em cerca de 111%.

Os híbridos plug-in atravessam uma situação mais difícil. Apesar de representarem 9,63% das vendas, acima dos 8,31% do stock, o seu Market Days Supply permanece nos 83 dias. O índice de preços caiu para 80,88% do nível de Janeiro de 2020, uma correcção quase tão profunda como a dos BEV, mas sem produzir a mesma aceleração da procura. À medida que os eléctricos puros se tornam mais acessíveis e comercialmente mais líquidos, o papel dos PHEV enquanto tecnologia de transição torna-se menos convincente.

A idade continua, contudo, a ser um filtro decisivo. Os veículos com cinco ou mais anos e os modelos entre três e quatro anos representam uma proporção das vendas superior à sua presença no stock, enquanto as viaturas com menos de dois anos correspondem a 30,80% da oferta, mas apenas a 26,91% das transacções. Num mercado em que a acessibilidade permanece determinante, os compradores continuam a privilegiar veículos que já absorveram uma parte significativa da depreciação.

O crescimento dos BEV não significa, por isso, que o preço tenha perdido importância. Resulta precisamente de os valores terem corrigido até um nível que o mercado consegue absorver, apoiados pelos descontos no novo, pelos incentivos públicos e pelos custos mais elevados dos combustíveis. Portugal encontrou o preço que transforma a depreciação dos eléctricos em procura, mas ainda não encontrou o seu valor final: a sustentabilidade dos valores residuais continuará dependente da qualidade da aquisição, da idade, da autonomia, da geração tecnológica e da diferença de preço face a um veículo novo.