“Não temos a representatividade europeia que o setor merece”, ARAN

Escolhido para dirigir os destinos da Associação Nacional do Ramo Automóvel (ARAN), pela segunda vez, Rodrigo Ferreira da Silva mostra-se satisfeito com o trabalho que tem vindo a desenvolver e revela as prioridades para o novo mandato. No ano em que a ARAN celebra o 85.º aniversário, assinala um crescimento de quase mil associados nos últimos 48 meses, com cada vez mais presença geográfica em todo o país
Em julho, a ARAN elegeu os novos órgãos sociais para o quadriénio 2025-2029, com Rodrigo Ferreira da Silva a voltar a assumir a presidência, naquele que é o seu segundo mandato. Após o falecimento de António Teixeira Lopes, em 2017, Ferreira da Silva tomou as rédeas da associação, tendo-se candidatado ao cargo pela primeira vez, um ano e meio depois. Nessa altura, conta, “estávamos em pleno Covid e, devido a essas circunstâncias, não me foi possível fazer algumas alterações ou pôr em prática algumas ideias que eu tinha para a associação”.
Entre os objetivos cumpridos, o presidente da ARAN destaca a maior representatividade nacional nos órgãos da empresa, pois hoje “temos pela primeira vez empresas nos órgãos sociais que representam as regiões do Algarve, Alentejo, Lisboa, Aveiro, Braga, Guimarães, Porto e Aveiro, pois a associação estava muito conotada com a zona Norte, desde a sua génese”. Além de reforçar a presença geográfica, Rodrigo Ferreira da Silva quis também “aprofundar cada uma das áreas que representamos dentro da Associação e desafiar também empresários a liderarem grupos de trabalho, quer sejam empresários da área dos concessionários automóveis, de veículos pesados e de veículos comerciais, de reboques, dos reparadores e oficinas independentes, da área das carroçarias e transformação de veículos, da área das peças, dos automóveis usados e até da área das motos”. Estes grupos de trabalho vão permitir à ARAN ser mais envolvente e dinâmica, nomeadamente com o primeiro evento de reboques, a realizar-se a 12 de novembro, no Luso, com a liderança de Frederico Gomes, da Autotranscais, de Cascais, sendo a primeira vez que a associação conta com alguém da área dos reboques na direção.
85 anos de ARAN
Fundada em 1940, a ARAN celebra 85 anos em 2025, registando cerca de 2.700 associados. Desses, perto de mil juntaram-se à associação nestes últimos quatro anos, um movimento “que tem muito mérito das equipas que trabalham na ARAN e angariam, e é também a prova da valorização que o mercado faz do trabalho da associação”, afirma Rodrigo Ferreira da Silva, que acrescenta que desde 2021 a ARAN avançou “para um sistema operativo totalmente novo e passamos a faturar as quotas todas para ter também, nessa área operacional e financeira, um melhor controlo e visão a qualquer momento do ponto de situação: quotas faturadas, quotas recebidas”.
Depois de ver a festa dos 80 anos «boicotada» pela pandemia de Covid-19, este ano também não foi possível comemorar os 85 anos da ARAN, devido às eleições legislativas: “Só iremos festejar no primeiro trimestre do próximo ano, porque não estávamos a contar com as eleições legislativas em maio e isso alterou-nos tudo. Quando quisemos avançar com uma data, adiantá-la ou mesmo atrasá-la, já não conseguimos hotéis, nem salas, nem a logística necessária para fazer um evento como nós queremos, que inclui convidar também alguns especialistas internacionais”, lamenta o nosso entrevistado.
Utilidade pública em várias áreas
Rodrigo Ferreira da Silva defende que, sendo a ARAN uma associação sem fins lucrativos, as iniciativas que defendem não têm um objetivo comercial, no entanto, devem ter utilidade pública: “A ARAN Parts é um exemplo disso, não somos um Marketplace, nem queremos ser, mas vimos uma oportunidade de ter mais um serviço para oferecer aos empresários. Tem um custo, que é quase uma taxa moderadora, que tem de cobrir o investimento porque as quotas que os nossos associados nos pagam não são suficientes para suportar um investimento dessa grandeza”, explica. Não só na ARAN Parts, como nos serviços que têm de “higiene e segurança de trabalho, na área ambiental e em vários protocolos que fazemos com diferentes parceiros em que tudo que nós podemos dar é dado ao associado, sem esta visão comercial, não queremos ter margem de lucro”, afirma.
Outro dos pilares da associação é a formação e o presidente da ARAN aponta que “para nós, o CEPRA é fundamental na estratégia da formação e captação de jovens, ter programas como o Erasmus, e desmistificar a formação técnica em detrimento de uma via mais académica, porque ainda há muito preconceito em relação à formação técnica. A construção da nova delegação no Porto está prevista e planeada, estamos a trabalhar nisso dentro de uma ideia muito original que a Câmara municipal da Maia e o IEFP conseguiram articular, que é um campus de formação profissional. Por outro lado, o setor automóvel também tem que puxar dos seus galões e atrair jovens pela parte emocional, a Fórmula 1 nunca foi tão popular como agora, ainda há uma parte intangível e emocional ao redor do mundo automóvel que acabamos por usar pouco quando queremos atrair jovens a esta área”, observa.
Atrair jovens e profissionais para o setor automóvel tem sido uma dificuldade latente dos últimos anos e a falta de mão de obra qualificada verifica-se não só neste, como noutros setores em Portugal e na Europa. Rodrigo Ferreira da Silva considera que “quem paga as contas ainda é o parque dos seis ou sete milhões de carros com motor a combustão, porque apenas 2 ou 3% é que são elétricos, portanto são precisos profissionais que estejam preparadíssimos para faturar e para andar para a frente. Não há futuro se não conseguirem satisfazer estes clientes nestes modelos mais tradicionais com motor a combustão; por outro lado, pede-se que os jovens já tenham estas competências futuras, o que muitas vezes obriga investimentos pesados, seja nos recursos humanos, seja nos físicos, mas o retorno é a médio ou a longo prazo. O problema é que isso custa muito dinheiro e, como nós sabemos, a maioria das empresas em Portugal deste setor são pequenas e médias empresas… como é que uma oficina com três trabalhadores consegue que 33% da sua força esteja fora do ambiente de trabalho para ter formação?”, questiona. O segredo está em encontrar esse equilíbrio e, segundo o responsável da ARAN, “cada empresa tem que procurar a sua realidade, onde é que está localizada, qual é a sua base de clientes, tudo começa aí”, entende.
Fusão da CECRA e da AME
A nível europeu, o CECRA, que é a associação que representa os concessionários e as oficinas no velho continente há 40 anos, fundiu-se com a recém-criada AME (Automotive Mobility Europe), no sentido de unir esforços para conseguir mais voz do setor em Bruxelas e Estrasburgo. Ferreira da Silva comenta que “a partir do final do ano passado, com a saída na altura do Diretor-Geral que estava há 15 anos no CECRA, quisemos dar sinal de uma abertura total a novos parceiros e começámos a trabalhar para aproximar o CECRA à Mobilians que é a grande associação francesa e à ZDK que é a grande associação alemã. Depois de um primeiro encontro em Bruxelas, seguiu-se mais um em Paris e outro em Amsterdão, onde assinamos uma primeira carta de intenções e estes dois pilares europeus, a França e a Alemanha, convidaram mais seis associações para com eles fundarem a Automotive Mobility Europe: o nosso caso, da ARAN, a Ganvan espanhola, a Traxio belga, a associação dinamarquesa, que é AutoBranchen, a associação finlandesa (AKL) e a BOVAG, dos Países Baixos, também de gente muito competente”, revela o responsável.
Este foi o primeiro passo para aproximar o CECRA das duas associações e trazê-las para junto da comunidade europeia, depois da saída por questões políticas. Hoje, a AME tem seis membros do CECRA mais a Alemanha e a França, e o CECRA tem seis membros da AME mais os restantes. Enquanto vice-presidente de ambas as associações, Rodrigo Ferreira da Silva faz parte “do grupo que trabalhou em todas as questões legais e estatutárias, para fazer a fusão do CECRA e da AME, depois de estas duas assembleias gerais terem concordado com 100% de votos que as duas associações deveriam fundir-se”, esclarece, acrescentando que “agora vamos ter semanalmente reuniões online e presenciais… e precisamos de ter escala, pois há 13 milhões de empregos na Europa no setor automóvel e o retalho representa dez, com as fábricas a representar três. O peso da influência ao nível dos organismos europeus está completamente invertido em relação até ao peso do próprio emprego – as fábricas são fundamentais, não estou a dizer o contrário, – mas nós não temos a representatividade europeia que o setor merece e que representa, seja em postos de trabalho, em valor acrescentado, na proximidade às comunidades locais, às PME… acreditamos que a uma voz conseguimos ter aqui os recursos que são necessários para fazer um trabalho junto da Comissão, do Parlamento, seja em Bruxelas ou em Estrasburgo, bastante mais eficiente do que temos conseguido no passado”.
Com esta integração, ambas as organizações pretendem unir forças para reforçar a representação do setor do comércio, reparação automóvel e mobilidade junto das instituições europeias. A nova entidade terá como missão estabelecer um diálogo direto com legisladores, fabricantes, fornecedores, associações de consumidores e organizações ambientais. A decisão marca um passo estratégico para consolidar uma voz única e mais forte em Bruxelas, garantindo maior influência na definição das políticas que impactam o ecossistema automóvel europeu.
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