O que está em causa quando a pressão não dá folga?

O que acontece quando os motores não param, mas quem os repara está no limite? Este artigo dá voz a um tema ainda ausente nas oficinas automóveis: o impacto do stress e da saúde mental no dia a dia destes profissionais
Em Portugal — como no resto da Europa — a saúde mental deixou de ser um assunto tabu e passou a ser reconhecida como uma dimensão central da qualidade de vida no trabalho. No entanto, nem todos os setores têm acompanhado esta mudança ao mesmo ritmo. Nas oficinas automóveis, onde o foco está muitas vezes na eficiência, na rapidez e na técnica, o bem-estar emocional dos trabalhadores continua a ser uma conversa adiada. Este artigo propõe-se a abrir espaço para essa reflexão. Começamos por olhar para os dados globais e nacionais sobre saúde mental no trabalho, para depois nos aproximarmos de um cenário ainda pouco explorado: o das oficinas automóveis.
Um desafio global que entra nas empresas
A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho, estimam que, todos os anos, mais de 12 mil milhões de dias de trabalho são perdidos devido à ansiedade e depressão. Este impacto traduz-se em perdas económicas avultadas, mas também em ambientes de trabalho menos saudáveis, com trabalhadores desmotivados, absenteísmo crescente e uma maior rotatividade. Em Portugal, os números não são menos preocupantes. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, a saúde mental no trabalho custa anualmente à economia nacional cerca de 3,2 mil milhões de euros. Um estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional (APPSO), indicou que 17,2% da população ativa portuguesa apresentava sinais claros de burnout, enquanto 48,9% estava em alto risco de vir a desenvolvê-lo. Apesar dos avanços, a saúde mental continua a ser subvalorizada em muitas organizações, sobretudo naquelas onde prevalece uma cultura tradicional, centrada na produtividade imediata e com pouca abertura para discutir questões de bem-estar psicológico.
Pressão constante
Nas oficinas de reparação automóvel, o stress profissional pode ter várias origens: carga horária intensa, prazos apertados, ruído contínuo, exigências físicas elevadas, imprevistos técnicos e, frequentemente, relações hierárquicas pouco colaborativas. Trata-se de um ambiente com forte predominância masculina, onde muitas vezes se evita falar de cansaço emocional ou vulnerabilidade psicológica. Embora faltem estudos focados exclusivamente nas oficinas automóveis, os dados internacionais sobre ambientes industriais oferecem pistas relevantes. De acordo com a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU‑OSHA) — a entidade da União Europeia responsável por promover boas práticas em saúde ocupacional — cerca de 45% dos trabalhadores na UE relatam exposição frequente a riscos psicossociais, como pressão de tempo, sobrecarga de tarefas ou falta de apoio dos colegas e da chefia.
Estes fatores estão entre os principais preditores de burnout — uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um fenómeno ocupacional, resultante de stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso. O burnout manifesta-se em três dimensões principais: exaustão emocional; distanciamento mental em relação ao trabalho (também referido como despersonalização); e uma perceção persistente de ineficácia ou de falta de realização profissional. A intensidade dos sintomas pode variar ao longo do tempo — desde sinais mais leves como fadiga, irritabilidade ou desmotivação, até formas mais graves como ansiedade, insónias, dificuldades cognitivas e, em casos extremos, depressão. Quando não identificado precocemente, o burnout pode comprometer seriamente o desempenho profissional e levar a períodos prolongados de baixa médica ou mesmo à saída definitiva da atividade. Em setores como o da reparação automóvel, onde o trabalho físico e técnico exige atenção constante, os erros decorrentes do desgaste emocional podem ter consequências sérias tanto para a segurança como para a reputação da empresa.
Boas práticas com resultados visíveis
Embora ainda pouco comuns nas oficinas portuguesas, já existem exemplos dentro do setor que mostram ser possível cuidar da saúde mental no local de trabalho, mesmo em ambientes exigentes e técnicos. Na fábrica da SEAT, em Martorell (Espanha), foi criado o CARS — Centro de Atenção e Reabilitação em Saúde, uma unidade interna que disponibiliza apoio psicológico, consultas médicas e programas de prevenção de lesões. Além disso, foram implementadas políticas de rotação de tarefas e horários flexíveis para trabalhadores com responsabilidades familiares. Estas medidas têm como objetivo reduzir o stress acumulado e melhorar a qualidade de vida profissional. Também a nível europeu, a plataforma digital ifeel, especializada em saúde mental organizacional, tem sido aplicada em fábricas automóveis com resultados mensuráveis: registou-se uma redução de 25% no absentismo — ou seja, nas faltas ao trabalho por motivos de saúde física ou emocional —, um aumento de 30% no envolvimento dos trabalhadores e uma poupança anual de cerca de 2,77 milhões de euros em custos associados ao seu bem-estar.
O papel da liderança e da comunicação interna
A liderança exerce um impacto determinante no ambiente de uma organização. Supervisores e chefes de equipa que praticam escuta ativa, validam emoções, reconhecem o esforço dos trabalhadores e promovem um clima de confiança são, na prática, os primeiros agentes de prevenção no campo da saúde mental. Num estudo publicado na Harvard Business Review, intitulado The Neuroscience of Trust, o investigador Paul J. Zak identificou sete comportamentos de liderança que promovem confiança nas equipas, entre eles: reconhecer as conquistas dos colaboradores de forma espontânea, dar autonomia sobre a forma como se trabalha, partilhar informação de forma transparente, desenvolver relações, facilitar o crescimento pessoal e profissional e demonstrar vulnerabilidade enquanto líder. Empresas onde estas práticas são cultivadas registam até 74% menos stress, 106% mais energia, 50% mais produtividade e 40% menos burnout, comparativamente a organizações com baixos níveis de confiança interna.
Para que estas práticas se tornem sustentáveis, é essencial construir uma cultura de segurança psicológica onde cada trabalhador sente que pode expressar dificuldades, sugerir melhorias ou assumir erros sem receio de represálias. Este tipo de ambiente, baseado na confiança, empatia e relações de trabalho saudáveis é amplamente defendido por escritores e investigadores como William Kahn, Christina Maslach, Jeffrey Pfeffer e Adam Grant. Apesar das suas abordagens distintas, todos destacam que equipas emocionalmente seguras tendem a ser mais resilientes, colaborativas e adaptáveis — características essenciais em setores como o automóvel, onde o erro pode comprometer a segurança. Nestes contextos, a confiança interna deixa de ser apenas um valor humano para se tornar num requisito operacional.
Por que é que ainda se fala tão pouco sobre isto?
Apesar dos dados consistentes, a saúde mental no trabalho continua a ser uma questão rodeada de estigma em muitos contextos, especialmente naqueles com culturas organizacionais mais tradicionais e predominantemente masculinas, como é o caso das oficinas automóvel. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ambientes onde prevalece uma cultura de “dureza”, competição constante e intolerância ao erro tendem a desencorajar a expressão emocional, favorecendo o silêncio em vez do diálogo. Nestes contextos técnicos e operacionais, pedir ajuda pode ser percecionado como sinal de fragilidade o que leva muitos profissionais a manterem-se em silêncio, mesmo perante sinais evidentes de desgaste psicológico. Dados da Mental Health Foundation, no Reino Unido, mostram que os homens têm menos probabilidade de procurar apoio psicológico do que as mulheres, um padrão associado a normas sociais que desvalorizam a vulnerabilidade, ainda enraizadas em diversos setores industriais. Esta realidade pode dificultar o reconhecimento precoce de sinais de exaustão mental, aumentando o risco de agravamento dos sintomas ao longo do tempo.
Poderá também consultar o presente artigo na edição impressa ou online do Jornal das Oficinas nº225, aqui.




