A nova empresa Aumovio, criada a partir da divisão Automotive da Continental, traz ao centro da estratégia duas referências bem conhecidas das oficinas e distribuidores: VDO e ATE. Duas marcas com uma forte herança tecnológica que assumem agora papéis claramente definidos — a VDO focada na eletrónica, mecatrónica e novas soluções digitais, e a ATE dedicada ao universo dos sistemas de travagem
Para a Aumovio, o futuro do pós-venda não será definido apenas pela qualidade dos componentes, mas também pela capacidade de apoiar os profissionais na adaptação a veículos cada vez mais sofisticados. Serviços, conhecimento e proximidade ao mercado serão fatores decisivos nesta nova fase. Nesta entrevista, Enno Straten, diretor-geral aftermarket da Aumovio, explica como a empresa pretende transformar a independência numa vantagem competitiva, revela os planos para a VDO e ATE, analisa os desafios tecnológicos que aguardam as oficinas e destaca a importância do mercado português na estratégia da nova organização.
A Aumovio foi criada como uma spin-off da Continental. Que vantagens concretas oferece esta independência que não eram possíveis enquanto era uma divisão do grupo?
A independência da Aumovio, enquanto empresa derivada da Continental, oferece várias vantagens claras que não eram possíveis enquanto era uma divisão do grupo. Esta independência permite-nos concentrar-nos nas competências essenciais e nos objetivos estratégicos sem as restrições de uma estrutura corporativa de maior dimensão. Permite uma tomada de decisões mais ágil, estratégias adaptadas ao mercado da mobilidade e a capacidade de inovar e responder às exigências do mercado de forma mais eficaz. Além disso, a Aumovio pode tirar partido da sua própria identidade de marca e posicionamento no mercado, o que reforça a sua capacidade de atrair clientes e parceiros no setor automóvel.
A empresa estabeleceu como ambição liderar o futuro da mobilidade. Quais serão os indicadores-chave que definirão o sucesso da Aumovio nos próximos anos?
Em última análise, o sucesso deve ser visível em várias dimensões. Financeiramente, significa crescer de forma rentável, aumentando o conteúdo tecnológico por veículo e conquistando mais negócios em áreas de margem elevada. Operacionalmente, significa tornar-se mais rápida e ágil, com ciclos mais curtos entre a decisão e a execução e uma estrutura de custos reduzida. Do ponto de vista da inovação, esperamos lançar produtos no mercado mais rapidamente, escalar novas tecnologias mais depressa e melhorar a produtividade em I&D através da IA e de parcerias estratégicas. A resiliência refletir-se-á numa presença «local para o local» mais forte, em cadeias de abastecimento fiáveis e numa menor dependência de fontes individuais de semicondutores. E, em última análise, a nossa força competitiva deverá traduzir-se em taxas de sucesso mais elevadas, ganhos de quota de mercado junto de fabricantes de equipamento original (OEM) globais e chineses, qualidade e desempenho de excelência e uma satisfação crescente dos clientes.
A reorganização do mercado pós-venda traz as marcas VDO e ATE de volta à ribalta. Por que razão decidiram voltar a concentrar-se nestas duas marcas históricas, em vez de manter a marca Continental?
A ATE sempre foi, e continua a ser, a nossa marca dedicada aos travões. Isso foi verdade durante todo o nosso período no Grupo Continental e permanece inalterado. A VDO, por sua vez, é a nossa marca original para eletrónica e mecatrónica e, na verdade, nunca desapareceu. Produtos como os tacógrafos e as nossas soluções para frotas sempre foram comercializados sob o nome VDO. Apenas o portfólio de peças de pós-venda para automóveis de passageiros foi comercializado sob a marca Continental durante um período relativamente curto. Com a transição para a Aumovio, continuar com a marca Continental simplesmente não era uma opção. O restabelecimento da ATE e da VDO permite-nos aproveitar uma forte tradição, um elevado reconhecimento da marca e décadas de confiança entre clientes e profissionais de oficinas, ao mesmo tempo que proporcionamos uma arquitetura de marca clara e focada para o futuro.
Como é que os distribuidores e as oficinas reagiram ao regresso da VDO? A receção correspondeu às expectativas?
Para ser sincero, a reação tem sido esmagadoramente positiva. Na verdade, muitos dos nossos distribuidores e clientes de oficinas agradeceram-nos duas vezes: primeiro, por termos levado a cabo a transição de forma realmente harmoniosa e, segundo, por termos trazido de volta uma marca que sempre gozou de um enorme nível de confiança, credibilidade e reconhecimento no mercado. A VDO tem uma longa tradição na área da eletrónica e da mecatrónica, e muitos clientes têm uma forte ligação emocional à marca. Por isso, sim, a reação correspondeu plenamente — e, em muitos casos, superou — as nossas expectativas.
Apesar da mudança de marca, garantem-nos que os produtos, a qualidade e a disponibilidade permanecem inalterados. Qual foi o maior desafio para assegurar esta transição sem causar incerteza no mercado?
É exatamente isso: os produtos, a qualidade e a disponibilidade permaneceram inalterados ao longo da transição. Na verdade, observámos muito pouca incerteza no mercado. Uma das razões é que a mudança se centrou principalmente na marca, e não na alteração de produtos, tecnologias ou níveis de serviço. Do ponto de vista operacional, a transição foi relativamente simples. Implementámos a mudança de marca de forma gradual, incluindo uma introdução faseada das novas embalagens, o que ajudou a tornar o processo suave e sem sobressaltos para distribuidores, oficinas e clientes finais. Como resultado, o mercado manteve-se focado no que mais importa: a fiabilidade, qualidade e disponibilidade contínuas dos nossos produtos.
A empresa planeia expandir significativamente a sua gama de soluções ADAS. Considera que este será um dos principais motores de crescimento no mercado pós-venda na próxima década?
As reparações e calibrações de sistemas ADAS continuam a ser realizadas predominantemente por oficinas de concessionários autorizados e prestadores de serviços especializados. No entanto, o mercado pós-venda independente está a investir cada vez mais no equipamento e na formação necessários. Consequentemente, espera-se que o potencial de mercado para produtos relacionados com o ADAS, soluções de diagnóstico e formação técnica seja muito forte nos próximos anos. Por isso, a formação e o apoio técnico deverão tornar-se mais importantes do que o próprio produto. Muitas oficinas enfrentam atualmente o desafio de diagnosticar e calibrar as novas tecnologias dos veículos de forma segura e correta, o que cria uma procura crescente por conhecimentos especializados, formação prática e assistência técnica local.
Os SDV – Veículos Definidos por Software (Software Defined Vehicles) representam uma mudança estrutural na indústria automóvel. De que forma esta transformação irá alterar o papel de fabricantes de componentes como a Aumovio?
Os SDV estão a fazer com que a indústria passe de um modelo centrado no hardware para um modelo centrado no software. Consequentemente, fornecedores como a Aumovio estão a evoluir de fabricantes de componentes para parceiros de tecnologia e sistemas. O valor já não é criado apenas por peças individuais, mas pela capacidade de combinar hardware, software e serviços em experiências de cliente integradas. É aí que vemos uma grande oportunidade de crescimento para a Aumovio.
A digitalização exige novas competências nas oficinas. Como tenciona a Aumovio apoiar os profissionais de pós-venda na adaptação a tecnologias cada vez mais complexas?
A crescente complexidade dos veículos modernos exige novas competências e novas formas de trabalhar. É por isso que apoiamos as oficinas a vários níveis. Com o ATE Remote Support, os técnicos podem aceder a orientação especializada em tempo real através de vídeo ao vivo e realidade aumentada. Através da ATE VDO Academy, oferecemos formação prática em áreas como ADAS, sistemas de alta tensão e arquiteturas de veículos modernos. A especialização em travões está no centro do nosso portfólio de formação. Combinamos conhecimentos comprovados sobre travões com tecnologias do futuro, como ADAS e sistemas de alta tensão. O nosso objetivo é simples: estamos aqui para ajudar as oficinas a transformar a especialização técnica em sucesso empresarial num mundo automóvel cada vez mais digital.
Os serviços partilhados entre a VDO e a ATE incluem apoio técnico, formação certificada e programas de fidelização. Até que ponto os serviços se estão a tornar um fator diferenciador tão importante quanto os próprios produtos?
Os produtos de qualidade continuam a ser a base do nosso negócio – sem eles, nada mais importa. Mas no mercado pós-venda atual, os produtos por si só já não são suficientes. As oficinas e os distribuidores enfrentam uma complexidade técnica crescente, desde o ADAS até à eletrificação e aos veículos definidos por software (SDV), e valorizam cada vez mais os parceiros que os ajudam a ter sucesso para além do próprio produto. Através do nosso ecossistema de serviços partilhado pela VDO e pela ATE, combinamos apoio técnico, formação certificada, ferramentas digitais e programas de fidelização para ajudar os clientes a resolver os desafios do mundo real todos os dias. Nesse sentido, os serviços tornaram-se um importante fator de diferenciação. Fortalecem a fidelidade dos clientes, criam valor acrescentado mensurável e transformam um fornecedor de produtos num parceiro de negócios a longo prazo.
A sustentabilidade é um dos valores fundamentais da empresa. Como é que este compromisso se traduz, na prática, no desenvolvimento de produtos e nas operações globais da Aumovio?
Saiba a resposta a esta e a outras questões na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº230, consulte aqui.

