ANECRA reúne 400 profissionais em Coimbra

A ANECRA realizou, no dia 22 de maio, no Hotel Vila Galé Coimbra, o Encontro Nacional do Comércio de Automóveis Usados. Aquele que é considerado o mais relevante evento em Portugal dedicado a este segmento do setor automóvel contou com uma assistência de cerca de 400 profissionais
Num contexto de profunda transformação, esta edição assumiu particular relevância ao reunir, num mesmo espaço, os principais protagonistas do setor para uma reflexão estratégica sobre o presente e o futuro da atividade. Sob o tema “Setor Automóvel – Rumo a um Futuro Mais Inteligente”, o encontro colocou no centro do debate as grandes dinâmicas que estão a redefinir o mercado, da digitalização à regulação, passando pelas novas exigências dos consumidores e pela crescente pressão competitiva.
No ano em que a Associação celebra o seu 116.º aniversário, Roberto Gaspar, Secretário-Geral da ANECRA destacou a evolução positiva do setor automóvel, através da apresentação do mais recente Barómetro ANECRA e dados da GIPA: em 2025, o mercado de viaturas ligeiras novas ultrapassou os níveis registados em 2019, alcançando um crescimento de 4% face ao ano anterior. Relativamente à importação de viaturas usadas, os dados do primeiro quadrimestre de 2026 revelam um aumento na ordem dos 20%, sendo que o parque circulante registou igualmente uma evolução de 13%, refletindo a dinâmica do mercado. Destaca-se, ainda, o crescimento da importação de veículos elétricos, cuja quota passou de 13% para 21%, evidenciando uma maior procura por soluções de mobilidade sustentável.
Marketplaces no Ecossistema dos Usados: Desafios, Impacto e Futuro
Um dos momentos mais aguardados foi o painel “Marketplaces no Ecossistema dos Usados: Desafios, Impacto e Futuro”, moderado por Pedro Pinheiro Gonçalves (WTC Lisboa), que juntou, pela primeira vez, líderes de algumas das principais plataformas do setor Pedro Menezes Soares (Standvirtual), Miguel Mendes (Carmine) e Filipe Pestana Neves (PiscaPisca).
Ficou claro que marketplaces assumiram um papel central na influência da decisão de compra. O poder, que durante décadas esteve maioritariamente nas mãos das marcas, deslocou-se progressivamente para as plataformas digitais, que oferecem aos consumidores mais informação, maior transparência e uma experiência assente na confiança e na comparação. Com uma presença nacional e internacional, estas plataformas conseguem ajustar preços em tempo real, responder rapidamente às alterações do mercado e disponibilizar uma oferta cada vez mais ampla e personalizada.
Esta transformação está a mudar profundamente o comportamento dos consumidores. Hoje, os compradores pesquisam mais, comparam mais e tomam decisões de forma mais antecipada e informada. Neste contexto, a visibilidade deixou de ser suficiente. A questão já não é apenas se a empresa está presente nos canais digitais, mas sim se consegue destacar-se e ser a escolha final do consumidor.
Os marketplaces estão a investir fortemente em inteligência artificial, criando uma infraestrutura tecnológica capaz de recolher, analisar e interpretar grandes volumes de dados. Esta capacidade permite não só melhorar a experiência do utilizador e aumentar a eficiência operacional, mas também desenvolver modelos preditivos que ajudam a antecipar tendências, comportamentos de compra e necessidades futuras. A inteligência artificial está, assim, a transformar os marketplaces em verdadeiros ecossistemas de conhecimento, onde a informação se torna um ativo estratégico.
As empresas precisam de evoluir da lógica tradicional de venda para uma lógica de diferenciação e criação de valor. O desafio dos próximos anos será, precisamente, transformar a visibilidade em preferência e a presença digital em vantagem competitiva sustentável.
Financiamento Automóvel: Pilar para a Sustentabilidade das Empresas O programa prosseguiu com o painel “O Financiamento Automóvel – Pilar Estratégico para a Sustentabilidade das Empresas”, que reuniu responsáveis de entidades de referência como David Correia (Cetelem BNP Paribas), Carla Silva (Santander Consumer Bank), Paulo Jorge Figueiredo (Cofidis), Henrique Henriques (Banco Credibom) e Licínio Santos (Montepio Crédito), Diogo Nesbitt, (HAPI), sob moderação de Paulo Silveira (OKIS360), para analisar o papel do financiamento, o enquadramento do risco e o impacto das taxas de juro no setor.
Ficou evidente que o conhecimento especializado e a confiança no processo de crédito são fatores essenciais para valorizar e reforçar a credibilidade de todos os intervenientes do setor automóvel. Neste sentido, a ANECRA tem mantido um diálogo construtivo e permanente com o Banco de Portugal, apresentando diversas propostas de revisão e aperfeiçoamento do Regime Jurídico dos Intermediários de Crédito. O objetivo passa por contribuir para um enquadramento regulatório mais equilibrado, eficiente e ajustado à realidade das empresas do setor, promovendo simultaneamente a proteção dos consumidores, a transparência dos processos e a sustentabilidade da atividade económica.
Os próximos anos serão particularmente desafiantes para o setor, tornando ainda mais importante reforçar os princípios da confiança, da transparência e do financiamento responsável. Neste contexto, é fundamental que o regulador esclareça e assegure regras claras e previsíveis, garantindo simultaneamente aos operadores o tempo necessário para se adaptarem às novas exigências e enquadramentos legais.
Existem vários modelos possíveis em análise, o mercado deverá ajustar-se às mudanças que vierem a ser implementadas, será importante encontrar uma solução equilibrada, que cumpra os objetivos regulatórios sem comprometer a eficiência e a competitividade dos operadores. Independentemente do modelo que venha a ser adotado, o setor demonstrará, como sempre, capacidade de adaptação e resiliência perante os novos desafios.
Mercado: Dados e Tendências
A intervenção de Marta Espadeiro (Standvirtual) sobre “Mercado – Dados e Tendências” foi dedicado à análise dos principais indicadores do mercado de veículos usados: Segundo os dados do Standvirtual, entre maio de 2025 e abril de 2026 a procura de veículos ligeiros usados manteve-se consistentemente superior à oferta, evidenciando uma dinâmica de mercado favorável: foi registado um crescimento acumulado de cerca de 12% ao longo do período, (não sendo suficiente para acompanhar o ritmo da procura). Atualmente, quase uma em cada quatro pesquisas realizadas na plataforma incide sobre automóveis elétricos, tendo-se registado um aumento recorde de 122% após o agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente.
Destaca-se ainda a forte ascensão das marcas chinesas, cuja procura aumentou mais de 200%, refletindo uma mudança nas preferências dos consumidores portugueses e uma crescente confiança nestes fabricantes, impulsionada pela sua oferta competitiva em termos de tecnologia, autonomia e preço.
Os Desafios Imediatos do Comércio de Automóveis Usados
O programa encerrou com o painel “Os Desafios Imediatos do Comércio de Automóveis Usados”, moderado por Roberto Gaspar (ANECRA), que contou com a participação de Américo Barroso (ANECRA), Nuno Grosa (Benecar), Cátia Serrano (Equação Motor), Pedro Gamboa (Carina & Gonçalves), Hugo Marinho (321 Crédito), António Machado (Ayvens) e Ricardo Oliveira (WorldShopper), num debate centrado nos principais desafios atuais da atividade.
Foi referido que o setor enfrenta atualmente vários desafios, nomeadamente a incerteza associada à nova lei do regime do intermediário de crédito. Apesar disso, o mercado de veículos usados mantém-se dinâmico e com sinais positivos, destacando-se uma crescente procura por veículos importados, nestas categorias os elétricos são cada vez mais procurados, sendo que os veículos a diesel continuam a ter uma presença relevante neste segmento. De forma global, a oferta disponível no mercado nacional nem sempre é suficiente para responder à procura, o que tem levado a uma maior aposta na importação como alternativa cada vez mais comum e estruturante para o setor.
Os marketplaces foram também destacados, dada a sua crescente relevância no segmento do comércio de automóveis usados, assumindo um papel cada vez mais central na dinamização da oferta e na ligação entre vendedores e compradores.
Este evento afirmou-se uma vez mais como um espaço privilegiado conhecimento, debate e networking que promoveu o contacto direto entre comerciantes, grupos de retalho, gestores de frota, entidades financeiras e outros agentes do setor. Por fim, o almoço reforçou esta dimensão relacional, potenciando a criação de oportunidades concretas de negócio.




