“Saber reparar já não chega”, T.Academy

À frente de uma das empresas de formação mais antigas e respeitadas do setor automóvel, Jorge Zózimo acompanha há anos a transformação do pós-venda. Engenheiro mecânico e diretor-geral da T.Academy, defende que a oficina rentável já não é apenas a que sabe reparar, mas a que mede, organiza, forma equipas e começa a integrar a inteligência artificial no dia a dia
No terreno, a rentabilidade das oficinas já não se mede apenas pelo número de carros que entram pela porta. Para Jorge Zózimo, diretor-geral da T.Academy, o problema central está muitas vezes dentro da própria operação. “Hoje o maior problema não é falta de trabalho, é falta de organização”, afirma.
O responsável defende que muitas oficinas continuam sem uma visão clara sobre a sua própria produtividade. “Muitas oficinas continuam sem saber exatamente quantas horas estão a produzir e, mais importante, quantas estão a faturar”, explica. E é precisamente nessa diferença, entre o tempo produzido e o tempo efetivamente cobrado, que a margem se perde. “A diferença entre esses dois indicadores resulta na perda diária de dinheiro”, nota.
Mas a pressão sobre a rentabilidade não se fica pelos custos. Há também a evolução dos veículos e a necessidade de as oficinas acompanharem um setor em mudança. “Há outro ponto crítico: a falta de preparação para os carros mais recentes e para novas formas de trabalhar”, sublinha. Esta é uma questão que já tem impacto direto no negócio. “Quem não investe em formação, tecnologia e até em novas ferramentas como a IA acaba por ficar para trás, e isso paga-se diretamente na rentabilidade”, alerta.
Formação que funcione no dia a dia
É nesta realidade que a T.Academy tem desenvolvido o seu trabalho junto das oficinas. Jorge Zózimo explica que a intervenção da empresa procura estar próxima dos problemas reais do setor e não de uma formação desligada do que acontece todos os dias numa oficina. “Na T.Academy trabalhamos muito próximos da realidade das oficinas”, refere. “Não fazemos formação “de sala”, fazemos formação que tem de funcionar no dia a dia.”
A abordagem cruza a componente técnica com a gestão, mas é nesta última que encontra hoje uma das maiores vulnerabilidades das oficinas. “Onde vemos mais impacto é na gestão”, afirma. “Ainda há muitas oficinas desorganizadas, sem processos definidos, sem indicadores, sem controlo de produtividade. E isso depois reflete-se em tudo: atrasos, erros, margens baixas.” Na sua opinião, o objetivo passa por ajudar as oficinas a olhar para o negócio para lá da reparação. “O nosso foco tem sido ajudar a estruturar o negócio, porque saber reparar já não chega”, defende.
Digitalização com impacto direto
A digitalização surge como uma das mudanças mais importantes para as oficinas que querem ganhar eficiência sem aumentar a estrutura. “A digitalização já hoje tem impacto direto, mas o mais interessante é o que aí vem”, afirma.
Nos dias de hoje, a tecnologia já permite “controlar a operação, melhorar diagnóstico e comunicar melhor com o cliente”, algo que, segundo o responsável, “já faz diferença na rentabilidade”. Mas o próximo passo será mais profundo, com a entrada da inteligência artificial. “A IA vai permitir automatizar muita coisa, desde respostas a clientes, apoio na criação de orçamentos, análise de histórico de avarias, até suporte técnico quase em tempo real”, antecipa.
Também a forma como a oficina se apresenta ao cliente deverá mudar. “Vamos começar a ver cada vez mais interfaces digitais, assistentes virtuais e até avatares a fazer o primeiro atendimento, explicar serviços ou acompanhar o cliente ao longo do processo. Isto não substitui as pessoas, mas aumenta muito a capacidade da oficina, sem aumentar a estrutura. No fundo, a oficina do futuro vai ser mais leve, mais digital e muito mais eficiente”, acrescenta.
Quando os dados mudam a gestão
A formação é outra peça essencial desta transformação. Na parte técnica, o impacto é rápido: “menos erros, menos retrabalho, mais eficácia”. E isso, diz, “traduz-se logo em produtividade”. Na gestão, a diferença está em medir melhor e decidir com base em dados. “Quando se começa a medir, a organizar processos e a usar dados, muitas vezes apoiados por tecnologia, muda tudo”, afirma. A oficina deixa de trabalhar apenas em função do que surge no dia a dia. “Deixa de ser um negócio “a correr” e passa a ser um negócio controlado”, resume.
Menos perdas, mais valor
Produtividade, segundo diz, não é fazer mais depressa. É perder menos tempo no que não acrescenta valor. “Não é nada de muito complexo, mas tem de ser feito com consistência”, observa. O ponto de partida passa por planear melhor o dia, definir processos simples, separar funções, controlar tempos e manter a oficina organizada. “O técnico não deve estar a fazer trabalho administrativo”, exemplifica. Mesmo a organização do espaço, muitas vezes vista como um detalhe, pesa no resultado. “Isto parece básico, mas faz muita diferença.”
A tecnologia pode ajudar nesse caminho, sobretudo quando retira peso a tarefas repetitivas. O responsável aponta o uso de ferramentas digitais e IA para “responder a clientes, preparar informação, organizar dados” e libertar a equipa para o que realmente importa. “Isso liberta tempo da equipa para aquilo que realmente gera valor.” Por isso, resume, produtividade não deve ser confundida com pressa. “Produtividade não é fazer mais à pressa. É evitar perdas e usar melhor os recursos disponíveis.”
Elétricos e Híbridos exigem preparação
Nos veículos elétricos e híbridos, há dois caminhos possíveis para as oficinas. “Quem não fizer nada vai sentir impacto, menos manutenção tradicional, menos entrada na oficina. Quem se preparar vai ter oportunidade.” Essa oportunidade, considera, ainda está longe de estar fechada. “Ainda há pouca gente realmente capacitada para trabalhar bem com elétricos e híbridos”, alerta.
Mas o desafio não se limita à parte técnica. Estes veículos obrigam a oficina a trabalhar com mais diagnóstico, mais software e mais acesso à informação. “Vêm acelerar a necessidade de mais tecnologia na oficina, diagnóstico avançado, software e acesso à informação”, explica.
Ao mesmo tempo, abrem espaço a formas de serviço “mais digitais, mais eficientes e até com recurso a ferramentas como IA para apoio técnico”. No fim, conclui, tudo dependerá da capacidade de cada oficina acompanhar esta mudança. “A diferença vai estar aí: entre quem evolui o negócio como um todo e quem fica preso ao modelo tradicional.”




