Para lá do convencional!, R20 Auto

Criar uma oficina automóvel diferenciada era um sonho antigo de Ricardo Trindade, que se tornou realidade em 2021. A R20 Auto nasce da paixão pelas corridas de automóveis e destaca-se pela oferta de serviços especializados de diagnóstico e pela preparação de carros de competição, desde a assistência técnica ao desenvolvimento mecânico, com a criação e melhoria de peças em laboratório

Ricardo Trindade, gerente da R20 Auto, começou “muito cedo nos automóveis”, conta-nos, revelando que sempre teve “o bichinho dos carros da competição”, o que o levou a investir em formações e diagnóstico, tendo acompanhado “desde os anos 90 até aos dias de hoje toda a evolução do mercado automóvel, pois na competição veem-se sempre coisas novas que só passado uns anos aparecem nos carros do dia-a-dia”. Porém, é licenciado em eletrotecnia naval e a maior parte da sua formação foi na Marinha, tendo, depois, sido supervisor de manutenção de aeronaves: “Estive quinze anos na Marinha e onze a estudar e a dar formação. Uma das coisas que me fez sair foi ter chegado ao fim de carreira muito cedo e não conseguir evoluir. Nesse tempo estive sempre ligado ao mercado automóvel e queria montar uma oficina mais ou menos dentro do meu padrão… obviamente, nunca temos as coisas 100% concluídas, mas hoje estamos aqui”, diz, mostrando-nos com orgulho a casa que já celebrou cinco anos de existência.

“Uma oficina «clean» onde as pessoas se sentem bem”

O projeto arrancou em 2020, daí o nome, R20, e a casa abriu portas em 2021, já como parte da rede RedService, que, na altura, também estava a dar os primeiros passos. Ricardo Trindade considera “importante pertencer a uma rede de oficinas, pois, para além de todo o controlo, traz facilidade, condições de compra de peças e componentes e toda a parte de suporte técnico, que é fundamental, hoje em dia”. A R20 Auto tem a Diagtec Plus como fornecedor de máquinas de diagnóstico, de centralinas e hardware, contando com todo o apoio técnico por parte da marca, mas o responsável clarifica que não estão ligados a esta rede. A ideia era criar uma oficina que se diferenciasse no mercado, não só pela forma como recebe os clientes, mas, sobretudo, pelos serviços que oferece. “Quando montei isto, tentei criar uma oficina «clean», onde as pessoas se sentem bem. Tenho clientes que, por vezes, vêm para este espaço trabalhar, porque estão aqui sossegados. Aqui têm impressora, internet e condições, como se fosse um «cowork», para estar à vontade. Muitas vezes vêm fazer a reparação e ficam aqui, porque têm algumas comodidades”, afirma Ricardo Trindade, que apostou numa dinâmica de confiança com os clientes, garantida, em parte, pela utilização do software OfficeGest. Graças a este programa de gestão oficinal, “nós lançamos uma folha de obra, o cliente acede à aplicação e, numa manutenção, nós facilmente relatamos qualquer situação com um componente e o cliente consegue ver, já com o preço, e dá o aval, para avançarmos ou não. Foi uma ferramenta com a qual começamos a trabalhar logo desde o início, porque hoje em dia as pessoas estão cada vez mais ligadas às aplicações e gostam de ter essa informação. E é bom termos transparência com o cliente daquilo que fazemos!”, sublinha.

Os genes da competição

Atualmente, a R20 Auto consegue fazer todo o tipo de serviços de reparação automóvel, menos pneus, chapa e pintura, “fazemos toda a parte mecânica, mecatrónica automóvel, a parte de desenvolvimento e prototipagem de componentes, quando já não existem no mercado, por exemplo para um restauro, e depois a competição: o desenvolvimento mecânico e o desenvolvimento elétrico. Em 2023 desenvolvemos um carro de competição para a Kia, com todo o suporte da marca, portanto, temos capacidade de dar resposta”, assegura Ricardo Trindade, sem esconder que é uma área à qual tem muito apreço. “Sempre estive muito ligado à competição, conheço muita gente por causa dessa área e derivado a isso, as pessoas também me contactam, pois, antes de ter a oficina, dei assessoria de diagnóstico a outras empresas de norte a sul do país, há alguns anos”, diz, acrescentando que hoje tem na empresa “um laboratório, onde conseguimos fazer a reparação de alguns componentes eletrónicos do carro, sejam centralinas de airbag, centralinas de motor, quadrantes, reparação de baterias, fazemos diagnóstico de baterias em bancada, reparação de baterias de carros híbridos e elétricos, clonagem de módulos, toda essa área de mecatrónica, inclusive a parte de microssoldadura”, elenca. Os serviços são feitos não só para clientes privados, como também para outras oficinas com as quais colaboram, sendo que o responsável garante que “não temos qualquer problema em aceitar esses trabalhos, porque temos um investimento grande em máquinas e em formação e conseguimos resposta a muitos dos problemas que aparecem noutras oficinas”.

Falta de mão de obra

Para Ricardo Trindade, a maior dificuldade desta área de negócio, e que já vai sentindo também na R20 Auto, é mesmo “a falta de mão de obra qualificada e de pessoas realmente responsáveis e que gostem daquilo que fazem. Não estou a dizer “vistam a camisola”, porque hoje em dia é muito difícil as pessoas vestirem uma camisola pelo que quer que seja, mas é muito complicado termos as condições, a estrutura, as ferramentas, o investimento e não termos os técnicos qualificados, pessoas que queiram apoiar o projeto e andar com isto para a frente”, lamenta, apontando a necessidade de reestruturar os cursos de formação, tanto os técnicos como os do ensino superior, que pensa estarem “muito mal lecionados em algumas áreas”. A seu ver, seria necessário “focarem-se mais nas aulas práticas – algo que se perdeu muito no ensino superior – e investirem mais em laboratório e em ferramentas, para darem condições a aulas práticas. Nós já aceitámos alguns estagiários engenheiros e notava-se muito essa falta de sensibilidade para manusear ferramentas de binário de aperto. Um engenheiro mecânico passa a maior parte do curso a desenvolver parafusos e porcas e não sabe desenvolver, fazer cálculos para um binário de aperto de um aço específico, que são coisas sensíveis e básicas, que se estão a perder na formação”, opina, dizendo ainda que “há muitas pessoas que são mal direcionadas para formações ou pensam que têm uma vocação, e depois não têm, e nunca vão saber até entrarem no mercado de trabalho, porque não têm prática nas aulas, é uma grande falha na formação!”.

Formação contínua

Na opinião de Ricardo Trindade, a formação “faz parte do desenvolvimento não só pessoal, mas também profissional. Hoje em dia, temos que dedicar bastante tempo a formações, e cá em Portugal está a ficar tudo um pouco mais do mesmo. Há muita gente a querer ganhar dinheiro com as formações básicas e que são essenciais, mas temos que andar lá fora no mercado. Quando queremos investir no mercado da eletrificação, por exemplo, temos que olhar para países como a Áustria, para mim são dos mais avançados do mundo, onde têm a melhor formação e o melhor know how. Por exemplo, a Polónia a nível de fabricação também está muito à frente, também estamos a importar material da Turquia, por exemplo, que está com um aftermarket impressionante. Nós, em Portugal, estamos um bocadinho atrasados relativamente ao que se passa lá fora e estamos agora a começar a sentir isso no mercado automóvel”, entende. A R20 está preparada para dar assistência a veículos elétricos e híbridos, no entanto, “é um serviço que temos que saber muito bem se vamos aceitar ou não, de forma a conseguirmos rentabilizar, devido à falta de componentes novos, que as marcas não disponibilizam. Se fizermos a reparação do módulo de baterias, e instalarmos módulos usados, é um serviço que para mim não é eficiente, pois qual é a garantia que vamos dar? Se as oficinas não estão preparadas para esta era de eletrificação, seja a nível de equipamentos, formações e técnicos especializados, o aftermarket também não está. Existem muito poucos componentes novos para uma viatura elétrica, tirando consumíveis, obviamente travões, braços, discos, etc.., mas temos que saber lidar com isso”, diz-nos o responsável.

“Vamos ter muitos desafios pela frente”: saiba quais, na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº229, aqui.