Choque dos combustíveis trava queda dos elétricos usados

Um estudo do INDICATA concluiu que a subida dos preços dos combustíveis impulsionou a procura por veículos elétricos usados na Europa e interrompeu, pela primeira vez em mais de dois anos, a queda dos seus valores residuais
A subida acentuada dos preços dos combustíveis provocada pelo conflito com o Irão levou os consumidores europeus a procurar mais veículos elétricos a bateria usados e interrompeu, pela primeira vez em mais de dois anos, a trajetória prolongada de queda dos seus valores residuais.
O novo estudo do INDICATA, baseado na análise diária de mais de 14 milhões de anúncios, conclui que a recuperação foi impulsionada por uma procura efetiva, atraída por uma vantagem imediata nos custos de utilização, e não pelo aumento da oferta.
A melhoria permanece, contudo, modesta face à desvalorização acumulada e não se verificou nos mercados onde as políticas públicas continuam a introduzir mais veículos elétricos do que a procura consegue absorver.
Procura acelera e stock diminui
Na Europa, excluindo o Reino Unido, os BEV representavam cerca de 9,2% das vendas de automóveis usados em fevereiro de 2026. Em abril, essa quota subiu para 14,01%, a maior subida mensal alguma vez registada pelo INDICATA para esta motorização.
Em maio, após o cessar-fogo de abril ter reduzido temporariamente a pressão sobre os combustíveis, a quota recuou para 11,51%, mantendo-se ainda acima do nível anterior ao conflito.
Ao mesmo tempo, a quota dos BEV no stock disponível caiu de aproximadamente 10,9%, em janeiro, para 8,1% em maio, mostrando que a procura estava a absorver os veículos mais rapidamente do que o mercado conseguia repô-los.
O Market Days Supply confirma esta evolução. Depois de ter atingido 106 dias no início de 2026, caiu para 47 dias em maio. Na Alemanha, desceu de 112 dias em fevereiro para 36 dias em abril, recuperando para 49 dias em maio.
Valores residuais interrompem queda
A redução da oferta começou a refletir-se nos preços poucas semanas depois. Na Europa, excluindo o Reino Unido, o índice médio dos preços de retalho dos BEV atingiu um mínimo de 92,56% em abril e recuperou para 93,42% em junho.
Segundo o INDICATA, foi a primeira subida sustentada desde o início da tendência prolongada de desvalorização.
A Alemanha registou uma recuperação mais expressiva, com o índice dos BEV a subir de 95,89% em abril para 98,36% em junho. Países como os Países Baixos, Dinamarca, Alemanha e França, onde a insuficiência de oferta foi mais acentuada, registaram aumentos de preços entre 1,5% e 2% em dois meses.
Portugal acompanha tendência
Portugal acompanha o padrão europeu identificado pelo estudo. O mercado nacional apresenta uma insuficiência de oferta de BEV próxima de 35% face aos níveis anteriores ao conflito e uma valorização aproximada de 0,8% nos dois meses analisados.
O movimento é mais moderado do que o observado noutros mercados europeus, mas confirma a relação entre maior procura, menor disponibilidade e recuperação dos preços.
Oferta excessiva limita recuperação
A evolução não foi igual em todos os mercados. Na Bélgica, o índice dos preços dos BEV continuou a cair, apesar da subida dos custos dos combustíveis, devido ao elevado volume de veículos elétricos provenientes de frotas que continua a entrar no mercado de usados.
No Reino Unido, os preços dos BEV diminuíram cerca de 1,7% no período analisado. O estudo associa esta evolução ao Mandato ZEV, que obriga os fabricantes a cumprir quotas crescentes de vendas de veículos de emissões zero.
“O choque dos combustíveis demonstrou que os consumidores reagem rapidamente quando a vantagem económica dos veículos elétricos se torna clara. Mas mostrou também que a procura só consegue sustentar os valores residuais quando não é anulada por um crescimento da oferta desligado da capacidade real de absorção do mercado”, afirmou Andy Shields, diretor da USD Consulting e autor do estudo.
Apesar da inversão recente, a recuperação permanece limitada. Numa perspetiva de três anos, o índice europeu dos BEV continua cerca de 36 pontos abaixo do nível de janeiro de 2023.
O estudo conclui que a duração desta melhoria dependerá da evolução dos preços dos combustíveis, dos custos da eletricidade e, sobretudo, do equilíbrio entre procura e oferta.




