Peças remanufaturadas: Fiáveis e mais sustentáveis!

02 - pecas_remanufaturadas_aftermarket

Custam menos, têm garantia e funcionam como peças novas. Ainda assim, as peças remanufaturadas continuam longe de ser a escolha óbvia, sobretudo porque muitos consumidores ainda desconhecem como são feitas e que desempenho oferecem

Durante décadas, uma avaria mecânica implicava quase sempre a compra de uma peça nova, mesmo numa altura em que já começavam a surgir empresas dedicadas à reconstrução de componentes. Hoje, essa realidade começa a ganhar outra expressão no mercado. As peças remanufaturadas (também conhecidas como peças reconstruídas) resultam de componentes usados ou em fim de vida que recuperam o desempenho equivalente ao de uma peça nova, após passarem por um processo técnico rigoroso. Este tipo de solução é hoje aplicado a uma vasta gama de componentes, desde motores e caixas de velocidades a alternadores, injetores, turbocompressores ou sistemas de emissões, como filtros de partículas e catalisadores. A crescente complexidade dos veículos também contribuiu para este avanço. À medida que motores, transmissões e sistemas eletrónicos se tornaram mais sofisticados e mais caros de substituir, a remanufatura passou a ser não só uma alternativa económica, mas uma forma de manter a tecnologia original a um custo inferior.

Mais conhecimento, mais confiança
A evolução, porém, não depende apenas da técnica. A aceitação destas soluções continua ligada à confiança e à informação disponível para o consumidor. Um estudo publicado na Europa em 2019 analisou a perceção de proprietários de automóveis e concluiu que 58,6% desconheciam o conceito de peças remanufaturadas e 76,4% nunca as tinham adquirido, embora reconhecessem vantagens quando o processo lhes era explicado. Cinco anos depois, os desafios permanecem. O Europe Automotive Parts Remanufacturing Market Size, Share, Trends & Growth Forecast Report (2025–2033) destaca que, apesar da maturidade técnica do setor e do crescimento do mercado europeu de remanufatura, a consciencialização continua a ser limitada entre consumidores. O relatório cita uma pesquisa do setor que revela que cerca de 40% dos consumidores manifestam preocupação quanto ao desempenho e à durabilidade destas peças. Segundo o documento, este ceticismo pode estar relacionado sobretudo com a falta de compreensão sobre o processo de remanufatura e sobre as medidas rigorosas de controlo de qualidade que normalmente são aplicadas. Ao mesmo tempo, o relatório evidencia vantagens difíceis de ignorar. As peças remanufaturadas podem custar 30% a 50% menos do que as peças novas, mantendo um desempenho funcional equivalente. Esta poupança ganha relevância num contexto em que os preços dos componentes novos continuam a aumentar e o parque automóvel europeu está cada vez mais envelhecido, impulsionando a procura por alternativas de reparação mais económicas.

Um mercado a valer 68,5 mil milhões de euros até 2030
Do ponto de vista económico, o setor mostra um crescimento consistente. O mercado europeu de remanufatura de peças para automóveis foi avaliado em 58,3 mil milhões de dólares (aproximadamente 50 mil milhões de euros) em 2024, com projeções de alcançar 79,4 mil milhões de dólares (aproximadamente 68,5 mil milhões de euros) até 2030, segundo o mesmo relatório. Em 2024, o segmento de veículos de passageiros representou 65,5% de todo o mercado europeu, sustentado pelo elevado volume de veículos circulantes e pelo custo crescente da manutenção. O potencial está, portanto, identificado, mas a adoção efetiva continua dependente de algo tão simples quanto determinante: informação e confiança.

Um futuro mais sustentável e acessível
Em termos ambientais, remanufaturar um componente automóvel permite prolongar a vida útil de materiais que, de outra forma, se tornariam resíduos. Em vez de fabricar uma peça nova, um processo que exige extração de matérias-primas, fundição, transformação metalúrgica e transporte, a remanufatura aproveita a estrutura existente e reduz significativamente o consumo de energia necessário para devolver o componente ao seu desempenho original. A Comissão Europeia tem vindo a sublinhar que prolongar a vida dos produtos, quer através da reparação quer através da remanufatura, é uma das estratégias-chave para diminuir o impacto ambiental dos bens produzidos na União Europeia e reduzir a pressão sobre recursos críticos. Embora os números europeus definam a tendência, a remanufatura automóvel em Portugal e Espanha não está a começar agora. Há oficinas e empresas que acumulam décadas de experiência industrial, antes mesmo de o tema ganhar protagonismo na agenda ambiental. Algumas delas evoluíram de pequenas operações de reparação para estruturas técnicas capazes de reconstruir componentes complexos. Outras nasceram já com foco na economia circular, atraídas pelo mercado crescente, pela garantia e pela poupança para o cliente.

O presente artigo está também disponível na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº226, aceda aqui.