Repintura Automóvel: A nova era da repintura automóvel!

02 - A nova era da repintura automovel

O mercado de repintura automóvel em Portugal enfrenta desafios de mão de obra e pressão competitiva, enquanto evolui rapidamente em direção à digitalização, eficiência e sustentabilidade, moldando o futuro das oficinas e a forma como os serviços são prestados. Da oficina tradicional a centro tecnológico, o mercado prepara-se para viver uma nova era da repintura automóvel em Portugal

Apesar de se tratar de um setor relativamente estável, as oficinas enfrentam desafios significativos, sendo o mais crítico a escassez de mão de obra qualificada, especialmente de pintores e bate-chapas, o que limita a capacidade de resposta a uma procura em crescimento. Esta escassez de profissionais especializados tem conduzido a uma valorização da mão de obra existente, com salários mais elevados, mas, ao mesmo tempo, muitas oficinas continuam a praticar preços que não refletem plenamente os custos reais da operação, revelando uma oportunidade para reequilibrar a estrutura de preços e valorizar o trabalho dos profissionais.

O mercado tem registado uma tendência de redução de volumes em determinados segmentos, impulsionada pela menor sinistralidade, pelo desenvolvimento de produtos automóveis mais duradouros e tecnologicamente avançados, e por melhorias no desempenho dos materiais. Estes fatores contribuem para que os trabalhos de repintura sejam, em média, menos frequentes, mas mais complexos, exigindo das oficinas técnicas cada vez mais especializadas, especialmente com a introdução de novos substratos, acabamentos sofisticados e colorísticas complexas. A eletrificação crescente do parque automóvel também impõe cuidados adicionais na aplicação de tintas, reforçando a necessidade de formação contínua dos profissionais.

Consolidação progressiva
O setor tem assistido a uma consolidação progressiva, com fusões e aquisições de empresas cada vez mais frequentes, refletindo uma tentativa de ganhar escala, otimizar recursos e aumentar a eficiência operacional. Paralelamente, a digitalização está a transformar a forma como as oficinas operam, desde a gestão de cores e inventários até à monitorização de processos em tempo real. Plataformas digitais, espectrofotómetros inteligentes e sistemas integrados de gestão na cloud permitem reduzir desperdícios, agilizar os tempos de ciclo e aumentar a produtividade, fatores críticos face à escassez de mão de obra. Esta digitalização tende a intensificar-se nos próximos anos, associada à automação de processos e, eventualmente, à robotização de algumas operações, principalmente em grandes centros de colisão.

A sustentabilidade é outro eixo que ganha relevância no setor. A crescente consciência ambiental, aliada à regulamentação sobre emissões de compostos orgânicos voláteis (VOC), tem impulsionado a adoção de produtos à base de água, soluções de Mass Balance e tecnologias que incorporam matérias-primas renováveis certificadas. Estes processos permitem não apenas reduzir o impacto ambiental das oficinas, mas também otimizar os custos de operação, uma vez que produtos de secagem rápida e maior eficiência reduzem o consumo de materiais e energia, ao mesmo tempo que permitem realizar mais trabalhos com menos recursos.

Formação como elemento central
A formação contínua emerge como um elemento central para o futuro do mercado. Diante da complexidade crescente dos materiais, da digitalização e da necessidade de eficiência operacional, oficinas e distribuidores estão a investir em programas de capacitação tecnológica e gestão empresarial. O objetivo é não só manter a competitividade, mas também atrair e reter profissionais mais jovens e conectados, capazes de operar num ambiente altamente técnico e dinâmico. Sem uma estratégia de formação e valorização da força de trabalho, a escassez de mão de obra poderá agravar-se, limitando o crescimento do setor, mesmo num contexto de alta procura.

Apesar do envelhecimento do parque automóvel em Portugal, a procura por serviços de repintura mantém-se robusta, impulsionada por clientes cada vez mais conscientes da importância de cuidar da carroçaria, não apenas por estética, mas também para preservar a durabilidade e valor do veículo. As oficinas que oferecem soluções sustentáveis e de alta qualidade, aliadas a um atendimento personalizado e aconselhamento técnico, ganham vantagem competitiva, especialmente em perfis de clientes dispostos a investir em reparações rentáveis e ambientalmente responsáveis.

Um problema em crescimento silencioso!
A utilização de tintas solventes na repintura automóvel, apesar de amplamente regulada há mais de duas décadas, está a regressar de forma preocupante ao mercado português. Este fenómeno contraria a legislação europeia e nacional, que desde 2001 define limites rigorosos para o teor de Compostos Orgânicos Voláteis (COV), substâncias altamente nocivas para o ambiente e para a saúde humana. Os COV libertados pelas tintas solventes contribuem para a degradação da qualidade do ar e, consequentemente, para problemas respiratórios, cardiovasculares e alergias. Apesar de existirem alternativas tecnicamente evoluídas e ambientalmente mais seguras — como as tintas à base de água, que contêm apenas 10% a 15% de solventes — o mercado assiste a um crescimento das tintas solventes, sobretudo em pequenas oficinas multimarca. Esta realidade resulta de um conjunto de fatores que expõem fragilidades estruturais na fiscalização, na informação disponível e no comportamento comercial de alguns distribuidores.

Três grandes tendências
Nos próximos anos, o setor será moldado por três grandes tendências: eficiência operacional, digitalização e sustentabilidade. A eficiência passará pela adoção de processos mais rápidos, redução de desperdícios e maior produtividade da mão de obra existente. A digitalização permitirá otimizar a gestão de cores, materiais e inventário, além de possibilitar decisões baseadas em dados. A sustentabilidade continuará a crescer como fator diferenciador, com oficinas capazes de aliar produtividade a práticas ambientalmente responsáveis a liderarem o mercado.

Em síntese, o mercado de repintura automóvel em Portugal enfrenta desafios estruturais, como a escassez de mão de obra e a pressão sobre a rentabilidade, mas também apresenta oportunidades significativas de crescimento e modernização. A consolidação de operadores, a digitalização das oficinas, a adoção de soluções sustentáveis e a valorização da mão de obra qualificada são elementos-chave para garantir competitividade e adaptação às necessidades futuras. Oficinas que souberem equilibrar qualidade, eficiência, inovação tecnológica e responsabilidade ambiental estarão bem posicionadas para prosperar num mercado em evolução, consolidando Portugal como um setor de referência no contexto europeu de repintura automóvel.

Aceda a este artigo na edição impressa e online do Jornal das Oficinas n226, aqui.