Especializada na distribuição de componentes elétricos e eletrónicos para o setor automóvel, a Auto Recto é hoje uma referência nacional neste segmento de mercado. Fundada em 1976 por Alcino Sousa e Abel Rodrigues, a empresa celebra este ano o seu 50.º aniversário, assinalando cinco décadas de crescimento sustentado, sempre fiel aos valores que estiveram na sua génese
A história de como tudo começou é-nos contada por Paulo Rodrigues, filho de Abel Rodrigues, que partilha atualmente a gerência da Auto Recto com Alcino Sousa. “A Auto Reto começou em 1976, com o meu pai, e com o Sr. Alcino Sousa, que está aqui presente, e foi crescendo ao longo do tempo. Começou com um funcionário, no centro da cidade do Porto, numa sala, que era na Rua de Entreparedes. Passado um ano, foi para a rua de São Vítor, que ainda hoje são nossas instalações. E depois, ao longo dos anos, sempre foi, passo a passo, crescendo, obrigando a procurar novos espaços”.
Cinco décadas depois, a empresa continua a crescer de forma sustentada. Atualmente, a sede localiza-se em Ermesinde e a Auto Recto conta ainda com instalações nos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia, e em Viseu, empregando cerca de 40 colaboradores no conjunto das três unidades. Em 2012, Abel Rodrigues afastou-se da gestão da empresa, dando lugar aos filhos, Paulo e Conceição. Mais tarde, após o desaparecimento do fundador e a saída de Conceição Rodrigues da sociedade, a estrutura acionista e de gestão passou a ser assegurada por Paulo Rodrigues e Alcino Sousa, com quem estivemos à conversa para conhecer melhor a evolução da empresa, os desafios do mercado e os projetos para o futuro.
Stock e serviços
Hoje, a Auto Recto é amplamente reconhecida como uma das principais referências nacionais na área dos componentes elétricos e eletrónicos para automóveis. Para Paulo Rodrigues, essa posição consolidada no mercado assenta, acima de tudo, em dois pilares fundamentais: a disponibilidade de produto e a qualidade do serviço prestado aos clientes: “stock e serviços, temos que ter um serviço que satisfaça o cliente a nível de entrega e de logística e isso é o que nos fez estar sempre no topo”.
Embora a identidade da empresa continue fortemente ligada ao comércio, por grosso e a retalho, de peças e acessórios para automóveis na área do material elétrico, o portefólio tem vindo a alargar-se de forma gradual. Essa evolução resulta, em grande medida, da própria dinâmica do mercado e da oferta dos fabricantes com quem trabalha. “Às vezes os nossos fornecedores também têm uma ramificação de material de mecânica, que já não é tão elétrico e somos «empurrados» para esta situação. Há um produto que nós temos, que é caso disso, que são as pinças de travão, que foi um fornecedor nosso, que é reconstrutor de alternadores e motores de arranque, que as colocou em stock. Mas o nosso foco é sempre material elétrico”, explica Paulo Rodrigues.
O portefólio da Auto Recto é hoje bastante abrangente e integra marcas com as quais mantém relações comerciais há várias décadas. Um dos exemplos é a Elstock, parceira da empresa há mais de 30 anos. No total, a empresa dispõe de cerca de 40 mil referências, um universo que exige uma gestão diária particularmente rigorosa e uma monitorização permanente da disponibilidade de produto. Segundo Paulo Rodrigues, esse trabalho é assegurado por uma equipa dedicada exclusivamente à gestão de compras, reposição de stock e acompanhamento das necessidades dos clientes. “Para se vender tem de se comprar e nós temos pessoas de manhã à noite que estão focadas nas compras, nas saídas, nas faltas, no cliente… na peça que não temos, mas que foi pedida, na peça que não temos e que nunca tivemos, que também é uma prioridade. O mercado está sempre a evoluir com automóveis novos e nós estamos sempre atentos às novidades”, garante.
Além da distribuição de componentes, a empresa integra a plataforma Recambio Fácil, representa em Portugal a MSG Equipamentos e assegura igualmente a distribuição exclusiva da MTA na área do diagnóstico. Entre as mais recentes incorporações no portefólio destacam-se ainda marcas como a Delphi e a Ridex, reforçando a capacidade da empresa para responder às necessidades de um mercado em constante evolução. Ao nível da logística, a Auto Recto aposta na rapidez e proximidade. As entregas são efetuadas duas vezes por dia nas zonas envolventes das suas lojas, enquanto os destinos mais distantes são assegurados através de transportadoras, permitindo que oficinas e retalhistas recebam as encomendas, na maioria dos casos, no dia útil seguinte.
Um mercado específico
A forte especialização da Auto Recto na área dos componentes elétricos e eletrónicos faz com que a formação técnica assuma um papel particularmente relevante. No entanto, tratando-se de um segmento muito específico do aftermarket, nem sempre é fácil encontrar ações de formação externas suficientemente direcionadas para as necessidades da empresa. Por esse motivo, a aposta passa sobretudo pela formação interna e pelo apoio técnico dos fabricantes e fornecedores. “Essas são as formações mais proveitosas de todas, as que nos são dadas pelos nossos fornecedores, quando cá vêm, explicando o «porquê» das coisas”, diz Paulo Rodrigues. Ao longo dos últimos anos, a Auto Recto tem vindo a acumular diversas distinções, entre as quais PME Líder, PME Excelência e presenças regulares no TOP100 das maiores empresas do setor. Para Paulo Rodrigues, estes reconhecimentos refletem o trabalho desenvolvido ao longo de décadas e o contributo de toda a equipa. É o resultado de “uma vida de trabalho e ao serviço prestado aos clientes e prestado pelos fornecedores a nós. Quando recebemos alguma distinção, toda a equipa da firma Auto Recto contribuiu e fica satisfeita”.
Também a evolução das três unidades tem acompanhado esse percurso de crescimento sustentado. Alcino Sousa destaca que a empresa tem registado “um crescimento modesto, mas sempre ascendente e sólido”, uma estratégia que privilegia a consistência em detrimento de expansões demasiado rápidas. Apesar disso, existe um projeto que continua a fazer parte dos planos da administração há vários anos. A abertura de uma loja na região de Lisboa mantém-se como um objetivo estratégico, sobretudo pela importância daquele mercado e pelo potencial de crescimento que representa para a empresa. “Há cerca de 10/15 anos que temos como intenção abrir uma loja em Lisboa, mas ainda não conseguimos concretizar devido a vários fatores”, revela Paulo Rodrigues, explicando que “temos uma área de clientes entre o Algarve, Lisboa e arredores, e potenciais clientes, num mercado que poderia dar mais. Porque nós temos os comerciais que fazem as zonas, mas o tempo que têm é muito limitado e eles têm que ter tempo para procurar, senão não há aproximação”.
A relação de proximidade com os clientes continua, aliás, a ser um dos pilares da estratégia comercial da Auto Recto. A carteira está distribuída por vários comerciais, embora existam também clientes acompanhados diretamente pela empresa. Num contexto em que muitas interações passaram a ser feitas por meios digitais, Paulo Rodrigues considera que a presença no terreno continua a ser indispensável. Questionado sobre a importância de manter uma equipa comercial na estrada, responde que é uma situação que se “justifica sempre pela proximidade. Quando o comercial não aparece hoje, nem no mês seguinte, vai sendo esquecido. A visita do comercial é uma mais-valia, pela presença e pelas cobranças efetuadas, pois para o cliente, fazer transferências, mandar cheques e fazer pagamentos, torna-se difícil”, aponta Paulo Rodrigues.
O advento dos elétricos
A eletrificação do parque automóvel é um dos temas incontornáveis do aftermarket e também faz parte das preocupações da Auto Recto. Embora reconheçam que a transição será gradual, os dois gerentes acompanham atentamente a evolução deste mercado e admitem que a mudança terá impacto na atividade da empresa. Para ambos, a chegada dos veículos elétricos representa “um desafio muito grande”, ainda que Alcino Sousa considere que “não sentimos na pele essa concorrência, mas vamos sentir, não será é nos próximos 20 anos, acho eu”. Já Paulo Rodrigues acredita que o ritmo de crescimento deste segmento ainda levanta algumas dúvidas e recorda a forte evolução registada recentemente: “Se tiver um crescimento como teve este ano, não sei, foi um crescimento anormal. No início, achamos que foi alavancado por causa das guerras e fez muitas pessoas adquirirem carros elétricos”.
Na perspetiva de Alcino Sousa, a realidade da manutenção dos veículos elétricos também acabará por evoluir à medida que estas viaturas forem envelhecendo e necessitando de intervenções mais profundas. Apesar deste mercado ainda representar uma parcela reduzida da atividade da empresa, a Auto Recto já disponibiliza alguns componentes destinados a veículos elétricos. No entanto, os responsáveis sublinham que o impacto comercial continua a ser muito reduzido, pois “é uma coisa residual. Não representa nada nas vendas da empresa”.
Meio século de história
No ano em que celebra 50 anos, a Auto Recto apresenta uma nova identidade visual, modernizando a sua imagem sem perder a herança construída desde 1976. A renovação atualiza pela primeira vez o logótipo da empresa, preservando os seus elementos distintivos, mas adotando uma linguagem mais contemporânea, simples e adaptada aos meios digitais. A nova estratégia pretende também uniformizar a comunicação nos diferentes pontos de contacto e reforçar o posicionamento da Auto Recto como parceiro de referência no aftermarket automóvel e especialista em material elétrico automóvel. O ano em que celebra o seu 50.º aniversário será também marcado por um importante investimento logístico. A Auto Recto prepara a abertura de um novo armazém, nos Carvalhos, com 550 m² de área coberta e cerca de 600 m² de parque exterior, reforçando a capacidade de armazenamento e a eficiência da distribuição para as diferentes unidades do grupo. De acordo com Paulo Rodrigues, o novo espaço destina-se essencialmente a centralizar a receção das mercadorias, recebendo “toda a importação e a partir daí vai ser distribuído para Ermesinde, para a loja dos Carvalhos e para as lojas de Viseu e Vila Nova de Gaia”.
As comemorações do meio século de atividade assumiram um carácter de proximidade com clientes, parceiros e colaboradores, tendo sido realizado, no passado dia 1 de agosto, um grande evento comemorativo, que juntou cerca de 200 pessoas. Para Alcino Sousa, mais do que celebrar uma data, tratou-se de agradecer a todos aqueles que acompanharam o percurso da empresa: “Foi uma aproximação a todos os nossos clientes e amigos, para eles conhecerem bem a Auto Recto e terem uma confraternização feliz para todos nós. Um dia de convívio. Foi uma festa estendida a funcionários e familiares”.
O futuro da empresa é encarado com confiança. Alcino Sousa revela que, a partir de agosto, deixará de exercer funções operacionais no dia a dia da empresa, mantendo-se, no entanto, ligado à gestão e acompanhando a evolução do negócio. “Até à data, a Auto Recto teve sempre cuidado para que o progresso seja segurado com firmeza e com sustentabilidade. Eu, com a idade que tenho, a partir de 1 de agosto, já não farei parte do trabalho físico. Continuo cá, mas o trabalho será distribuído por Paulo Rodrigues. E estou convicto, por aquilo que ao longo dos anos conheço do Paulo, que essa sustentabilidade da empresa Auto Recto e da Auto Recto 2, (que é outra empresa, mas ligada à mesma gerência), não vai falhar”, antecipa.
Num momento de maior carga emocional, Alcino Sousa recorda também os primeiros anos da empresa e a visão que partilhava com Abel Rodrigues para o futuro do negócio: “Com o meu falecido sócio, Abel Rodrigues, falávamos que isto era o futuro dos nossos filhos. Os meus filhos não fazem parte da empresa, mas o Abel trouxe os dois filhos, a Conceição e o Paulo, que ficou cá”, diz, confessando com saudade que “lembro-me muitas vezes do Abel, porque tivemos bons momentos e muito poucos momentos difíceis, porque houve sempre um interesse absoluto no progresso da Auto Recto. Nós continuámos, e estamos presentes até agora”. Doravante, confia que “a firma Auto Recto tem sustentabilidade e tem futuro. Daqui a cinco anos ou dez, o mercado há-de ditar, mas estou esperançoso que a firma Auto Recto tenha uma posição ainda maior no mercado, pois somos líderes em muitas coisas”, termina.
A presente entrevista está disponível na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº230, consulte aqui.

