Como ganhar dinheiro num mercado sob pressão!

Em 2026, rentabilizar uma oficina já não depende apenas da margem das peças. A guerra está a pressionar o preço do petróleo e dos materiais, os custos tornaram-se menos previsíveis e os automóveis exigem cada vez mais conhecimento técnico. Neste artigo, o JO reúne sugestões para diversificar serviços, aumentar a eficiência e proteger a rentabilidade do negócio

“Os portugueses vão continuar a manter os seus carros antigos”, “não queremos redes sociais, senão ficamos sem mãos a medir” ou “os carros vão continuar a bater” são frases que ainda se ouvem nas oficinas. E, em parte, fazem sentido. Trabalho não falta, o parque automóvel está envelhecido e há sempre carros a precisar de manutenção ou reparação. Mas ter carros à porta já não significa, por si só, ganhar dinheiro. Entre peças mais caras, orçamentos mais apertados, falta de técnicos e clientes mais atentos ao preço, a margem ficou mais difícil de segurar. E é aqui que começa a conversa sobre rentabilidade. Antes de pensar em crescer, muitas oficinas têm primeiro de perceber onde estão a ganhar, onde estão a perder e que serviços podem realmente acrescentar valor.

A margem das peças já não basta

Durante anos, a margem das peças ajudou a equilibrar contas nas oficinas. A mão de obra era mais baixa e o lucro acabava por vir, muitas vezes, da peça. Mas esse modelo está a mudar. Segundo um inquérito da ANECRA, quase três em cada quatro empresas de reparação automóvel prevê aumentar o preço da mão de obra este ano em três euros, para 38,82 euros por hora. Em declarações à Lusa, o secretário-geral da associação, Roberto Gaspar, defendeu que o preço da mão de obra foi, “historicamente, sempre muito baixo” e que, se antes essa diferença era compensada pela margem das peças, hoje “não chega para cobrir os custos”. A falta de profissionais também pesa. “A mão de obra é cada vez mais cara porque há uma escassez enorme. Portanto, se temos escassez, o custo das pessoas também é maior”, afirmou o responsável, lembrando também que os técnicos são hoje mais especializados. No mesmo inquérito, quase dois terços das empresas referiram ter falta de trabalhadores e mais de metade admitiu precisar de, pelo menos, dois funcionários extra. A falta de pessoal habilitado continua a ser a maior dificuldade apontada pelas oficinas, referida por 50% dos inquiridos. Do lado das peças, a pressão também aumentou. Roberto Gaspar alertou para as subidas nos materiais devido à escalada do preço do petróleo e explicou: “O que nós temos sabido, falando com muitos operadores na área de distribuição de peças, é que o que era normal de se fazer em termos de atualizações anuais ou semestrais, nesta altura têm de fazer atualizações, por vezes, quinzenais, porque as peças estão a chegar constantemente com preços diferentes daqueles com que chegavam há pouco tempo.”

Diagnóstico ganha peso

Reparar um carro já não é só trocar as peças e passar ao próximo. Muitas vezes, o trabalho começa antes, quando é preciso perceber o que está realmente a falhar. E esse tempo, que nem sempre aparece bem explicado no orçamento, também conta para a rentabilidade. Os carros mudaram muito. Têm mais sensores, mais eletrónica, mais software e mais sistemas de assistência ao condutor. Desde julho de 2024, todos os novos veículos vendidos na União Europeia passaram a trazer mais sistemas obrigatórios de segurança, como travagem automática de emergência, manutenção na faixa, deteção de fadiga, assistência inteligente de velocidade e sensores ou câmara de marcha-atrás. Segundo a Comissão Europeia, estas regras poderão ajudar a salvar mais de 25 mil vidas e evitar pelo menos 140 mil feridos graves até 2038. Para as oficinas, isto quer dizer mais coisas para verificar, calibrar e reparar. Um diagnóstico mal feito pode acabar numa peça trocada sem necessidade, num carro que volta com a mesma avaria ou em horas de trabalho que ninguém paga. E quando isso acontece, a margem poderá desaparecer. Não é por acaso que os sistemas ADAS começam a ser vistos como uma das áreas mais exigentes do pós-venda. O estudo Automotive Aftermarket Pulse 2025, da Roland Berger, feito com 600 oficinas e 6.000 consumidores em 13 mercados, mostra que muitas oficinas recusaram reparações ligadas a estes sistemas por falta de conhecimento técnico ou de equipamento. A falta de equipamento de calibração foi apontada como a maior dificuldade por 58% dos operadores. Ou seja, o trabalho existe. O problema é que nem todas as oficinas estão preparadas para o receber.

Veículos eletrificados exigem especialização

Os veículos eletrificados ainda não dominam o trabalho diário das oficinas, mas já começaram a aparecer. Na Europa, os elétricos a bateria representaram 17,4% das vendas de carros novos em 2025, acima dos 13,6% do ano anterior, segundo dados da ACEA. Em Portugal, no pós-venda, o número ainda é mais baixo. A ANECRA indica que os elétricos representaram, em média, 7% do total reparado em 2025. Para a oficina, isto muda algumas contas. Há trabalhos que aparecem menos, como mudanças de óleo, filtros ou certas peças de desgaste. Mas entram outros serviços, mais técnicos, ligados a baterias, sistemas de alta tensão, software, travagem, pneus e diagnóstico. Não é necessariamente menos negócio. É outro tipo de negócio. E é aqui que a rentabilidade volta a entrar na conversa. Nem todas as oficinas vão reparar baterias ou mexer em alta tensão já amanhã. Mas quem começar a preparar-se, com formação, equipamento e parceiros certos, pode ganhar espaço numa área onde ainda há menos concorrência. A margem pode não estar tanto na peça simples, mas no conhecimento técnico e na capacidade de resolver problemas que outros ainda não fazem.

O presente artigo também está disponível na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº229, pode consultar aqui.