20 anos Aftermarket: Duas décadas que mudaram tudo!

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No ano em que o Jornal das Oficinas celebra o seu vigésimo aniversário, o balanço do setor de pós-venda automóvel reflete uma trajetória marcada por transformação, resiliência e capacidade de adaptação. Nas páginas seguintes, damos voz aos protagonistas do aftermarket, que partilham a sua visão sobre a evolução do setor e as tendências que moldarão o seu futuro

Ao longo das duas últimas décadas, o aftermarket deixou de ser um espaço fragmentado e artesanal para se afirmar como uma indústria estruturada, digital e global. A evolução não ocorreu de forma linear, mas acompanhou os grandes ciclos económicos, tecnológicos e sociais que moldaram o mercado automóvel europeu. A crescente idade média das viaturas, a mudança no comportamento dos consumidores e o avanço das tecnologias de diagnóstico e gestão impulsionaram o crescimento de um ecossistema mais profissional e competitivo.

Os responsáveis das marcas do aftermarket reconhecem que o setor viveu uma autêntica revolução silenciosa. O que antes era dominado por pequenas empresas familiares com recursos limitados tornou-se num universo altamente especializado, sustentado por formação técnica, investimento em infraestruturas e aposta na inovação. A digitalização, a globalização e a exigência crescente dos clientes redefiniram os modelos de negócio. As oficinas, outrora focadas na reparação mecânica, são hoje centros tecnológicos capazes de lidar com software, eletrónica e dados.

Da fragmentação à consolidação
Esta transformação reflete-se também na consolidação da distribuição: grandes grupos e plataformas digitais impuseram um novo paradigma de eficiência, logística avançada e cobertura territorial. A concentração do mercado é apontada como um fenómeno inevitável. A união de distribuidores sob redes comuns e a integração em grupos de compra transformaram a estrutura competitiva. Essa consolidação, longe de ser apenas um movimento financeiro, representa um salto de maturidade: permitiu ganhos de escala, reforçou o poder de negociação e incentivou a profissionalização. Contudo, os líderes do setor sublinham que a proximidade com o cliente continua a ser a essência do negócio. As pequenas e médias empresas que apostam na especialização, na rapidez e no serviço de valor acrescentado mantêm espaço próprio neste ecossistema cada vez mais exigente. A coexistência entre grandes operadores globais e distribuidores regionais dinâmicos tem sido um dos pilares da vitalidade do aftermarket europeu.

Eletrificação do parque automóvel
Entre as forças que mais moldaram esta evolução destaca-se a eletrificação do parque automóvel. Embora ainda coexistam motores térmicos e híbridos, o avanço dos veículos elétricos está a reconfigurar a cadeia de valor. Os responsáveis das marcas encaram esta mudança como um desafio e uma oportunidade. Se por um lado desaparecem componentes de desgaste rápido, por outro surgem novas categorias de produtos e serviços: baterias, sistemas de gestão térmica, sensores, carregadores e software de controlo. A transição não será abrupta, mas progressiva, exigindo requalificação técnica e investimento contínuo. O setor que souber antecipar necessidades e adaptar-se à mobilidade eletrificada terá vantagem competitiva num cenário em que tecnologia e sustentabilidade se tornam indissociáveis.

O Impacto do comércio eletrónico
O comércio eletrónico é outro vetor decisivo desta transformação. As plataformas digitais e os marketplaces redefiniram as relações entre distribuidores, oficinas e clientes. O acesso à informação e a possibilidade de comparar preços e disponibilidade em tempo real aumentaram a transparência e a eficiência do processo de compra. Contudo, o e-commerce não elimina o papel do distribuidor tradicional — antes o reforça, desde que este ofereça valor acrescentado através de apoio técnico, formação e serviço pós-venda. A digitalização é uma aliada estratégica, mas exige atualização permanente, segurança de dados e integração de sistemas. O equilíbrio entre tecnologia e proximidade humana é hoje a fronteira que distingue as marcas mais fortes e sustentáveis.

Formação e competências
A formação surge como outro eixo estruturante do futuro. A complexidade eletrónica dos veículos, a presença crescente de sistemas ADAS, a gestão de dados e o diagnóstico de software exigem competências que aproximam o mecânico moderno de um engenheiro especializado. As entidades formadoras, em parceria com marcas e distribuidores, têm um papel fundamental na requalificação do setor. Dominar a alta tensão nos veículos eletrificados, interpretar dados telemáticos e operar plataformas digitais são agora requisitos básicos. Paralelamente, competências humanas como a comunicação com o cliente, a transparência e o acompanhamento personalizado tornaram-se diferenciais competitivos. A atratividade do pós-venda para as novas gerações dependerá da capacidade de projetar a oficina como um espaço tecnológico, sustentável e de progressão profissional.

O Papel do MVBER e a sustentabilidade
O enquadramento regulatório, em especial o regulamento MVBER, permanece tema central. A defesa do acesso equitativo à informação técnica e aos dados do veículo é vista como condição essencial para a concorrência justa e para a sobrevivência do aftermarket independente. A revisão do regulamento deverá garantir que oficinas e distribuidores independentes continuem a operar em igualdade de condições com os fabricantes. Num contexto de veículos conectados, inteligência artificial e novos modelos de mobilidade, a clareza legislativa será determinante para assegurar a diversidade e a liberdade de escolha do consumidor europeu.

A sustentabilidade, por sua vez, deixou de ser uma tendência para se tornar um imperativo estratégico. O pós-venda sempre foi, em essência, um setor sustentável, ao prolongar a vida útil dos veículos e promover a remanufactura. Hoje, este valor histórico ganha nova relevância com a adoção de práticas de economia circular, utilização de materiais reciclados e gestão responsável de resíduos. A integração de políticas ESG reforçam o compromisso ambiental. O consumidor, mais consciente e exigente, valoriza produtos duradouros e marcas transparentes, fazendo da sustentabilidade não apenas uma exigência legal, mas um diferencial competitivo.

O Aftermarket do futuro
As perspetivas para os próximos cinco a dez anos apontam para um aftermarket cada vez mais digital, sustentável e automatizado. A inteligência artificial otimizará inventários e preverá necessidades de manutenção; os veículos conectados gerarão novos modelos de serviço preditivo; a logística evoluirá para sistemas de resposta imediata e ecologicamente eficientes. O parque automóvel europeu continuará a envelhecer, o que garantirá procura consistente por manutenção e reparação, mesmo num contexto de eletrificação progressiva. As oficinas transformar-se-ão em verdadeiras “Mobility Service Stations”, centros integrados de mobilidade que combinam tecnologia, dados e experiência do cliente.
O futuro do aftermarket será, inevitavelmente, híbrido: coexistirão motores de combustão, híbridos e elétricos, integrados numa rede cada vez mais digital e global. As empresas que compreenderem esta convergência e investirem em inovação, formação e sustentabilidade estarão melhor preparadas para liderar. Mais do que uma fase de transição, o setor vive uma redefinição estrutural.

O pós-venda do amanhã não será apenas o espaço onde se repara um automóvel, mas o centro onde se gere a mobilidade de milhões de pessoas. O sucesso dependerá da capacidade de antecipar tendências, adotar tecnologia e manter viva a essência do relacionamento humano que sempre definiu este mercado.

Este artigo está também disponível na edição online da Revista TOP100, aqui.