Pós-venda: uma guerra de David contra Golias!

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Álvaro de la Cruz, diretor de Comunicação da Figiefa, afirmou no último congresso da Ancera, que o objetivo da associação é continuar a trabalhar de forma livre e que beneficie o setor aftermarket e a sociedade. Mas reconhece que a batalha não é fácil: “Na Figiefa somos 12 pessoas, enquanto os fabricantes de veículos têm mais de 200 pessoas dedicadas ao lobby. É uma guerra de David contra Golias, mas às vezes David também ganha”

De la Cruz destaca o “contexto político diferente” na União Europeia após as eleições europeias do ano passado: “A Comissão está focada na competitividade em face da agenda verde dos últimos anos. As maiorias parlamentares estão a seguir objetivos mais pragmáticos”. Isto, que a priori é positivo, esconde para o diretor de Comunicação da Figiefa um presente envenenado: “Está-se a defender o apoio aos gigantes europeus porque se acredita que são eles que podem competir com as grandes empresas internacionais, deixando de lado as PME, e isto significa acabar com a natureza da indústria europeia. Temos de olhar para o ecossistema de uma forma mais completa”.

Neste contexto, o plano de ação da Figiefa passa por “explicar que a indústria é muito mais do que o fabrico de automóveis”, uma vez que, na sua opinião, todos os apoios vão para os fabricantes de veículos, sem ter em conta toda a sua vida útil: “É preciso ter em conta toda a indústria, toda a sua capilaridade”. E nesta capilaridade, o pós-venda é fundamental…

Álvaro de la Cruz não se esqueceu da “rápida evolução tecnológica” que o setor está a viver e do seu impacto nas empresas de pós-venda: “Estamos a trocar a mecânica pela computação sobre rodas; isto vai mudar a forma como a manutenção e as reparações são feitas, pelo que devemos ter catálogos homologados, formas fáceis de instalar peças, acesso aos dados… O pós-venda independente tem de estar no centro das políticas europeias”.

A regulamentação que o parlamento europeu está a preparar para o pós-venda automóvel preocupa muito o setor, como revela o estudo realizado pela Figiefa em conjunto com a Clepa, em sete mercados-chave. De acordo com este estudo, os cinco elementos mais críticos no pós-venda são as peças cativas, a cibersegurança, o acesso à informação técnica e à porta OBD, os acessos remotos e a atualização do software nas oficinas. Se a Europa não fizer nada para legislar sobre estas matérias e deixar tudo nas mãos dos fabricantes, o custo para o utilizador vai subir 36.000 milhões de euros apenas nos sete mercados analisados no estudo.

Segundo a Figiefa, o pós-venda gera o dobro do trabalho dos fabricantes de veículos, as empresas não se deslocalizam, existe coesão social e investe o dobro da média europeia em I&D. O diretor de Comunicação da Figiefa resume o manifesto lançado pela associação no final do ano passado, que se baseia em cinco pilares: que os textos que saem da Europa sejam claros e precisos para que não haja margem para interpretação, preservar a concorrência para manter a acessibilidade do setor, ter políticas ágeis que reflitam a mudança tecnológica, melhorar a sustentabilidade e a circularidade dos veículos e acompanhar as PME para atrair talento.

“O nosso compromisso é continuar a trabalhar para garantir a liberdade de comércio, o acesso à informação técnica e aos dados telemáticos, abordar o impacto do veículo definido por software [codificação de peças, cibersegurança, atualizações] e a reparabilidade de cada componente do veículo”, conclui.

Sobre o aftermarket em Portugal, Álvaro de la Cruz alerta que “Noutros mercados europeus, sempre falando de números médios, os “top 10″ da distribuição representam entre 30% e 35% do negócio total. Portugal está muito longe disso: as dez primeiras empresas em faturação concentram entre 10% e 15%”. Mas isso está prestes a mudar, apontou: “Em 2035, os “top 10″ em Portugal somarão entre 30% e 35% da quota de mercado”. Se assim for, o aftermarket em Portugal estará, em apenas uma década, ao nível da Europa em termos de concentração.