Rentabilidade dos fornecedores de peças em declínio

03 - Rentabilidade dos fornecedores de pecas em declinio

Um em cada quatro fornecedores europeus de peças aftermarket prevê prejuízos em 2026 e três em cada quatro, lucros inferiores a 5%, de acordo com os dados do último relatório «Pulse Check» da CLEPA, que recorda que, desde 2024, se perderam 104.000 postos de trabalho entre os fornecedores

A rentabilidade dos fornecedores europeus de peças aftermarket tem vindo a deteriorar-se de forma consistente desde 2024, revelando um cenário cada vez mais preocupante para o futuro da indústria automóvel no continente.

De acordo com o mais recente estudo “Pulse Check” da CLEPA, os indicadores financeiros apontam para uma pressão crescente sobre as margens, colocando em risco a sustentabilidade do setor e a sua capacidade de investimento a longo prazo.

Os dados são claros: cerca de 75% dos fornecedores europeus antecipam margens inferiores a 5% em 2026, um nível considerado insuficiente para sustentar inovação, desenvolvimento tecnológico e expansão industrial. Mais alarmante ainda, quase um em cada quatro fornecedores prevê resultados negativos, evidenciando uma crise de rentabilidade que se intensifica.

Este contexto surge na sequência de perdas estruturais significativas, incluindo a eliminação de cerca de 104 mil postos de trabalho desde 2024, um reflexo direto da fragilidade económica do setor e, segundo a CLEPA, também da falta de respostas políticas eficazes.

Benjamin Krieger, secretário-geral da associação, descreve o cenário como “desanimador”, sublinhando que a queda da rentabilidade já compromete a capacidade das empresas de financiarem a transição tecnológica exigida pela Europa, nomeadamente no âmbito da descarbonização e da eletrificação. Para o responsável, um setor incapaz de gerar lucros sustentáveis não consegue acompanhar as exigências regulatórias e industriais impostas pelo atual paradigma de mobilidade.

Reconfiguração estratégica
Paralelamente, o estudo evidencia uma transformação profunda na estratégia das empresas. Perante a pressão sobre as margens, cerca de 73% dos fornecedores ajustaram os seus portfólios, concentrando-se em tecnologias-chave, como soluções eletrificadas e baseadas em software, enquanto abandonam progressivamente atividades de menor valor acrescentado.

Esta reconfiguração estratégica procura maximizar a eficiência e direcionar recursos para áreas com maior potencial de crescimento, mas não está isenta de riscos, sobretudo num contexto de elevada incerteza económica e geopolítica.

Um dos dados mais significativos do relatório prende-se com a diversificação das atividades. Cerca de 40% dos fornecedores estão a expandir a sua presença para setores não automóveis, como a defesa ou outras indústrias tecnológicas, numa tentativa de preservar capacidade produtiva e proteger empregos.

Embora esta estratégia demonstre a adaptabilidade e a capacidade de inovação da engenharia europeia, levanta preocupações quanto ao futuro da própria indústria automóvel. Se esta diversificação se tornar estrutural, poderá enfraquecer permanentemente a base industrial do setor na Europa.

Ao mesmo tempo, o equilíbrio global da indústria está a mudar. A China já gera quase o dobro do valor acrescentado no setor de fornecimento automóvel em comparação com a União Europeia, enquanto a produção europeia apresenta sinais de retração.

Este desfasamento reforça a necessidade de uma resposta estratégica clara por parte das instituições europeias, sob pena de o continente perder relevância num setor historicamente central para a sua economia.

Poucos sinais positivos
Apesar do cenário adverso, o relatório identifica alguns sinais positivos. Iniciativas como a Lei de Aceleração Industrial representam um passo na direção certa, ao procurarem incentivar a produção local e reforçar a competitividade europeia. No entanto, a sua eficácia dependerá da rapidez de implementação e da clareza das medidas adotadas. A CLEPA alerta ainda para a importância de uma avaliação rigorosa dos parceiros comerciais, de forma a evitar distorções concorrenciais e garantir condições equitativas para as empresas europeias.

No plano ambiental, a transição para uma mobilidade mais sustentável continua a ser um objetivo central, mas levanta desafios adicionais. A aceleração da eletrificação é essencial para cumprir as metas de redução de emissões de CO₂, mas, sem um enquadramento industrial robusto, pode resultar na transferência de cadeias de valor para fora da Europa. Neste sentido, a descarbonização associada à desindustrialização é considerada uma “vitória ilusória”, pois compromete o crescimento económico e a autonomia estratégica do continente.

O estudo da CLEPA traça um retrato exigente, mas também um apelo à ação. A Europa dispõe de talento, capacidade industrial e tradição inovadora para liderar a mobilidade do futuro, mas necessita de decisões políticas firmes e coerentes.

O tempo para agir é limitado, e o futuro da indústria aftermarket dependerá da capacidade de alinhar objetivos ambientais com sustentabilidade económica. Só assim será possível garantir que a transição em curso não representa uma perda de valor para a Europa, mas antes uma oportunidade de reforçar a sua posição no panorama global.

O caminho a seguir
Para enfrentar os desafios estruturais e apoiar a competitividade industrial, a CLEPA apela a uma regulamentação sobre o CO2 que garanta a inovação, permitindo que todas as opções competitivas e neutras em carbono prosperem, evitando imposições tecnológicas e possibilitando a escolha do consumidor.

É também necessária uma implementação imediata da Lei de Aceleração Industrial para prevenir a concorrência desleal e garantir que o futuro da mobilidade europeia permaneça na Europa.

O Parlamento Europeu e o Conselho devem instar a Comissão a ir além de uma postura comercial passiva. Em vez disso, a CLEPA exige uma avaliação rigorosa e baseada no risco dos parceiros comerciais, assente em critérios objetivos e numa aplicação robusta da lei.

Esta é a única forma de manter cadeias de abastecimento interligadas, colmatando simultaneamente lacunas comerciais e garantindo que a indústria europeia disponha de um ambiente justo no qual possa competir.