Boas práticas ambientais em oficinas: Oficinas Verdes

01 - Oficina verde

Incêndios, poluição dos mares e rios, inundações ou secas, são algumas das consequências da pegada da atividade humana no meio ambiente. São cada vez mais extensas as suas sequelas económicas e pessoais. A sustentabilidade do nosso planeta afeta a todos nós e é o trabalho de todos reduzir ao mínimo o nosso impacto

Embora a atividade das oficinas de reparação de automóveis não seja a mais nociva para o meio ambiente como os outros processos industriais similares, gerir inadequadamente os recursos com os que trabalham, levará a efeitos indesejáveis. Na atualidade já são definidas uma vasta coleção de boas práticas para minimizar este impacto em relação ao consumo de energia, de produtos ou os resíduos que geram, aplicáveis a qualquer atividade ou negócio. Detalhamos, especificamente, as oficinas de automóveis ou que tenham um valor adicionado nesta atividade.

Consumos energéticos
A principal medida para controlar o consumo energético é centrada na manutenção das instalações e do equipamento produtivo da oficina. Um plano rigoroso de manutenção preventiva, com o seu adequado controlo e seguimento, vai permitir o pleno rendimento de todos os componentes no seu funcionamento. Todavia, se o nosso objetivo é de reduzir o consumo de forma significativa, o único caminho que existe é substituir o equipamento por outro com uma maior eficiência energética. O desenvolvimento tecnológico e a sua aplicação ao equipamento da oficina torna possível que haja atualmente opções verdadeiramente eficientes. Por exemplo, as cabines de pintura com o sistema “inverter” conseguem uma importante poupança elétrica no arranque dos motores de impulsão e extração de ar. Se, para além disso, tivermos um controlador que adapte a sua velocidade às necessidades de fluxo de ar de cada operação podemos reduzir em 50% ou mais o consumo elétrico -interessante hoje em dia. Esta poupança é conseguida num ciclo completo de pintura de um veículo em relação a uma cabina convencional.

Se complementarmos esta medida com uma linha de tinta de secagem rápida, podemos reduzir o consumo elétrico 35% mais, uma vez que diminui o tempo de funcionamento dos motores da cabine. Logicamente, ambas as medidas envolvem uma inversão inicial e um aumento dos custos de produção, mas pouparíamos em cada ciclo de pintura aproximadamente 10 € (Este cálculo foi efetuado com um preço da eletricidade de 320 €/MWh).

Os outros exemplos de equipamentos com uma grande eficiência energética são as cabines com queimadores de gás de chama direta ou as que utilizam a energia elétrica ao criar calor mediante os painéis endotérmicos. Em ambos os casos a transmissão do calor é praticamente imediata. Esta é a sua principal vantagem, pela redução do consumo energético em relação às cabines com permutador de calor convencional. Usar gás natural ou eletricidade para criar calor tem uma outra vantagem adicional: ao obter a mesma potência calorífica com o gás natural implica que emita 30% menos gases com efeito de estufa do que se fizéssemos com gasóleo. Esta redução pode ser ainda maior se utilizarmos a eletricidade a partir de fontes renováveis para criar calor.
Na maioria das oficinas de reparação de automóveis, pelas caraterísticas das suas edificações, é possível fixar na cobertura painéis fotovoltaicos para a criação de eletricidade. Uma instalação de autoconsumo fotovoltaico poderá proporcionar à oficina uma capacidade de autosuficiência energética de mais de 50%. Atualmente é um bom momento para a transição energética perante a energia solar, facilitado pela nova norma a este respeito e as subvenções existentes.

Consumo de materiais e produtos
As oficinas de reparação também podem reduzir o seu consumo de materiais e produtos. É necessário aproveitar os recursos materiais dos veículos, ao prolongar o seu ciclo de vida ao máximo. Seguindo este princípio de economia circular, os esforços da oficina devem ser centrados na priorização da reparação das peças frontais em vez da sua substituição por novas peças sobresselentes. Isto só se consegue ao programar processos de reparação eficientes e o equipamento necessário para o efeito. Posteriormente, há que estar com atenção para poderem ser constantemente adaptados à evolução dos materiais com que serão fabricados os veículos e aos avanços da tecnologia de reparação. É essencial a formação para adquirir ou atualizar os conhecimentos e competências dos técnicos da oficina em intervenções sobre os plásticos, aços, alumínio, materiais compostos ou vidros.

Não obstante, mesmo que a reparação não seja viável por um ou outro motivo, é possível seguir ao ser aplicado o princípio da economia circular mediante as peças sobresselentes usadas ou reutilizadas provenientes de veículos que já tenham chegado ao fim da sua vida útil. Cada vez que é reutilizada uma das peças não é necessário extrair as matérias-primas da natureza, nem de utilizar os recursos no seu fabrico. Para tal, pode recorrer a um Centro Autorizado de Tratamento para veículos em fim de vida, que dispõe de uma ampla oferta de peças usadas com garantia. Um outro aspeto importante é o consumo dos produtos de tinta. É uma boa prática implantar um controlo do seu uso, ao registar as quantidades de cada reparação. Com o registo, iremos determinar se existem desvios no consumo ou se podemos otimizá-lo. Um exemplo: ajustar mais as quantidades dos produtos preparados, utilizar frequentemente técnicas de pintura parcial ou pistolas pulverizadoras com tecnologia que desenvolva a transferência da tinta à superfície.

Sobre o resto dos materiais de pintura, como os produtos para o lixamento e o polimento, o mascaramento ou a preparação de misturas, é recomendável utilizar elementos de alta eficácia. São mais caros, mas também mais duradouros, uma vez que ajudam a reduzir os resíduos que são produzidos na oficina. Por este mesmo motivo, devemos excluir, na medida do possível, os consumíveis de uso único.

Gestão de resíduos
Na atividade das oficinas de automóveis é inevitável gerar resíduos perigosos e não perigosos, por muito esforço que façamos para otimizar o consumo dos materiais e dos produtos. No entanto, uma segregação detalhada, ao armazenar cada tipo de resíduos separadamente, bem identificados e em lugares protegidos, facilitará a sua posterior reciclagem. Isto minimizará o seu impacto sobre o meio ambiente. Por exemplo, existe uma grande diferença entre as emissões de gases com efeito de estufa ao extrair o alumínio diretamente da natureza do que produzir peças de sucata com este material. Porquê? É fácil, poupa-se uma grande quantidade de energia elétrica com o segundo exemplo. Assim, ao segregar um só capot de alumínio para reciclagem e recuperação da sua matéria-prima, permite evitar até 65 kg de CO2. É aproximadamente o mesmo que conduzir 400 quilómetros num automóvel a gasolina. Felizmente, são cada vez mais as oficinas sensibilizadas com a proteção do meio ambiente e a seguir estas práticas. É a tarefa de todos de reconhecer os seus esforços para que a sua atividade não afete negativamente na sustentabilidade.
A ANECRA vai permitir a cinquenta empresas do Comércio e da Reparação Automóvel, de todo o país, a obtenção da certificação “EFFICIENTIA”, que visa fomentar a eficiência energética, a aquisição de comportamentos mais racionais, quanto ao consumo de energia e a adoção de novos hábitos de consumo. Todas as empresas do Comércio e da Reparação Automóvel, associadas ou não da ANECRA, podem candidatar-se, gratuitamente, à obtenção da certificação através do preenchimento do formulário no website da Associação.

Segundo Roberto Gaspar, Secretário-Geral da ANECRA, “a sensibilização para a importância do tema da energia, enquanto recurso escasso, e a sua forma de utilização, é um tema central no subsetor das empresas do Comércio e da Reparação Automóvel. Por essa razão, é urgente oferecer-lhes ferramentas críticas para promoção de novos comportamentos em relação à temática da Energia, potenciando uma participação mais sustentável e racional na sociedade em geral”. A certificação “EFFICIENTIA” terá ainda, como suporte à sua comunicação, além da página de Internet, a dinamização em redes sociais: Facebook, Instagram e LinkedIn, a impressão de cartazes informativos, a realização de três workshops de âmbito nacional e de um manual de eficiência energética para adoção por parte das empresas.