Lubrificantes automóvel: Menos litros Mais engenharia!

03 - Menos litrosMais engenharia

O mercado de lubrificantes automóvel em Portugal apresenta uma evolução estável em volume, mas com uma clara transformação ao nível do mix de produto e marcas. Os lubrificantes mais tradicionais perdem peso, enquanto o mercado evolui progressivamente para maior valor técnico e complexidade, exigindo maior especialização das oficinas e um papel mais relevante da distribuição no apoio à decisão técnica

Tradicionalmente caracterizado como um mercado maduro, com volumes relativamente estáveis e sem crescimentos explosivos, este setor reflete de forma direta a evolução da economia nacional e, sobretudo, a dinâmica do setor automóvel. Ao longo dos últimos anos, embora se tenham verificado oscilações pontuais influenciadas por fatores como a instabilidade dos mercados internacionais, a variação do preço das matérias-primas e a pressão das importações paralelas, o comportamento global tem sido de consolidação. Ainda assim, esta estabilidade em volume não significa estagnação; pelo contrário, o mercado tem demonstrado capacidade de adaptação e reinvenção, impulsionado por tendências tecnológicas, ambientais e regulatórias cada vez mais exigentes.

Um dos principais vetores de mudança reside na evolução tecnológica dos motores e dos próprios veículos. A crescente sofisticação mecânica, associada a sistemas de pós-tratamento de emissões, downsizing e eletrificação progressiva, tem elevado o nível de especificidade exigido aos lubrificantes. Observa-se uma clara migração para produtos de menor viscosidade, baixo atrito e elevada performance, alinhados com normas OEM e ACEA cada vez mais rigorosas. Viscosidades como 0W-16 ou 0W-8, outrora residuais, começam a ganhar relevância, acompanhando a necessidade de maior eficiência energética e redução de emissões. Esta evolução implica portefólios mais amplos, tecnicamente diferenciados e uma maior especialização por parte das oficinas e distribuidores, que assumem um papel mais ativo na prescrição técnica e no apoio ao cliente final.

Alterações no mix de procura
Paralelamente, a transição energética introduz novas variáveis no comportamento do mercado. A eletrificação do parque automóvel, ainda que não tenha provocado uma queda abrupta dos volumes totais de lubrificantes, começa a influenciar de forma clara as expectativas de médio e longo prazo. A rápida expansão de viaturas híbridas, em particular, tem originado alterações estruturais no mix de procura, nomeadamente através do aumento expressivo de veículos com caixas automáticas, o que reforça a importância de fluidos específicos para transmissões automáticas e outros produtos técnicos associados.
Ao mesmo tempo, emergem novas categorias, como fluidos para arrefecimento de baterias, lubrificantes para cadeias cinemáticas elétricas e massas técnicas de elevada especialização. Assim, a eletrificação não representa necessariamente a redução do negócio, mas sim uma reconfiguração do tipo de produtos vendidos: menos óleo de motor convencional e mais fluidos tecnológicos de maior valor acrescentado.

Outro fator determinante é a própria composição do parque automóvel português, que continua a apresentar uma das idades médias mais elevadas da Europa. A significativa percentagem de veículos com mais de 20 anos mantém a necessidade de lubrificantes tradicionais e multifuncionais, capazes de responder a um grande número de especificações. Este cenário cria um duplo desafio para os operadores do setor: por um lado, acompanhar as exigências dos motores mais modernos e, por outro, assegurar soluções economicamente viáveis e compatíveis com veículos mais antigos. Esta dualidade contribui para a complexidade do mercado e reforça a importância estratégica das marcas, cuja escolha passa a estar associada não apenas ao preço, mas também à fiabilidade, reconhecimento e racional económico.

Volume vs Valor
Em termos económicos, verifica-se uma tendência de divergência entre volume e valor. Embora se observe em determinados períodos uma ligeira redução do volume total vendido, motivada pela maior eficiência dos motores, intervalos de manutenção mais longos e crescimento gradual de veículos híbridos e elétricos, esta descida quantitativa é frequentemente compensada por uma subida do valor do mercado. Os lubrificantes sintéticos de alta performance, com especificações técnicas mais exigentes, possuem preços superiores e margens potencialmente mais interessantes, contribuindo para uma valorização global do setor. Em paralelo, a pressão sobre margens é uma realidade constante, o que torna a diferenciação técnica, o serviço associado e a capacidade de inovação fatores críticos de competitividade.

O mercado português tem também demonstrado sinais de recuperação e crescimento moderado em determinados momentos recentes, refletindo melhorias conjunturais da economia e um reforço da procura interna.

O segmento automóvel continua a representar a maior fatia do consumo total de lubrificantes, enquanto o segmento industrial se mantém relativamente estável. Contudo, a principal transformação não ocorre apenas em números absolutos, mas sobretudo na natureza dos produtos consumidos e no perfil do cliente. Há uma crescente valorização de soluções alinhadas com critérios ESG, eficiência de combustível, redução de emissões e durabilidade dos ativos, bem como uma maior abertura a serviços digitais integrados, análise de performance e gestão técnica de consumíveis.

O futuro do mercado de lubrificantes
O setor dos lubrificantes prepara-se para enfrentar, nos próximos anos, uma fase de … fique a par do artigo completo na edição impressa e online do Jornal das Oficinas nº227, aceda aqui.