Procura de BEV acelera na Europa

O agravamento das tensões no Médio Oriente começa a produzir efeitos visíveis no mercado automóvel europeu, impulsionando um renovado interesse pelos veículos elétricos a bateria (BEV), segundo a mais recente análise do Observatório Indicata
Em vários países europeus, a subida dos preços dos combustíveis está já a impulsionar de forma imediata as vendas de BEV usados, contribuindo para uma rápida redução dos níveis de stock. Esta evolução reflete-se numa melhoria dos principais indicadores de liquidez do mercado, designadamente através da diminuição dos tempos médios de venda.
No caso português, esta tendência manifesta-se de forma gradual, mas consistente. Embora o mercado de BEV usados permaneça ainda relativamente pequeno, tem vindo a evidenciar sinais de crescimento. Neste enquadramento, a conjugação de preços elevados dos combustíveis, custos da eletricidade comparativamente baixos e uma infra-estrutura de carregamento em progressiva melhoria reforça a atratividade da mobilidade elétrica, em especial na ótica do custo de utilização.
“Particularmente expressivo na atual conjuntura é o desfasamento entre a natureza do sinal e a natureza da decisão de compra”, afirma Yoann Taitz, Regional Head of Forecast and Market Expert do Indicata Global. “Estamos a assistir a uma aceleração aparente da transição dos consumidores para os veículos elétricos em resposta à subida dos preços dos combustíveis, apesar de a compra de um automóvel representar, em regra, um compromisso de quatro a cinco anos. Tal levanta interrogações quanto à sustentabilidade desta mudança, caso os preços da energia venham a normalizar.”
“Estamos a verificar uma aceleração clara das vendas de BEV usados, acompanhada por uma contração dos níveis de stock. Este ajustamento está, de forma quase mecânica, a tornar o mercado mais fluido”, acrescenta. “Ainda assim, essa evolução não se traduziu, até ao momento, em qualquer pressão ascendente sobre os preços.”
Apesar desta melhoria conjuntural dos fundamentos do mercado, os índices de preços mantêm-se globalmente estáveis e, em alguns casos, continuam mesmo a registar descidas, nomeadamente na Suécia, na Finlândia e na Suíça. Esta realidade reflete o peso persistente de desequilíbrios estruturais, em particular o excesso de stock acumulado ao longo dos últimos meses.
A evolução permanece, além disso, desigual no conjunto da região. Mercados como a Alemanha, a França, a Bélgica, a Áustria e os países nórdicos evidenciam um aumento mais expressivo da atividade comercial, ao passo que outros, como a Espanha e a Suíça, revelam uma dinâmica mais contida. No Reino Unido, o comportamento do mercado continua igualmente condicionado por fatores regulamentares, em especial pelo mandato ZEV, que anteriormente contribuiu para níveis de stock elevados e para uma pressão descendente sobre os preços.
Para além destes efeitos de curto prazo, subsistem desafios estruturais relevantes. Em vários países, a combinação entre incentivos fiscais e volumes significativos provenientes de frotas continua a afetar o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Neste enquadramento, a atual dinâmica do mercado deverá favorecer, no curto prazo, uma estabilização dos valores residuais (RV) dos BEV, sem, contudo, reunir ainda as condições necessárias para uma recuperação sustentada. A redução dos níveis de stock e a melhoria dos tempos de venda estão a contribuir para um reequilíbrio gradual do mercado, atenuando a pressão descendente observada nos últimos meses.
Ainda assim, esta melhoria continua a traduzir, sobretudo, uma fase de absorção do excesso de stock anteriormente acumulado, o que impede, para já, qualquer repercussão imediata nos preços. Em termos práticos, uma maior liquidez constitui um primeiro passo indispensável, mas não basta, por si só, para assegurar uma estabilização dos preços, muito menos uma recuperação dos valores residuais.
“Estamos a observar sinais mais favoráveis do ponto de vista dos fundamentos do mercado, o que deverá contribuir para conter uma maior deterioração dos valores residuais”, acrescenta Taitz. “No entanto, persistem fatores estruturais significativos (designadamente o excesso de stock em determinados mercados e as distorções induzidas por enquadramentos regulatórios e políticos) que continuam, em nosso entender, a impedir, nesta fase, qualquer recuperação substancial e duradoura dos RV.”
Traçando um paralelo com a reação do mercado na sequência do início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em 2022, o Indicata considera que a situação atual poderá seguir uma trajetória semelhante. Nessa altura, os preços dos combustíveis registaram uma subida acentuada antes de iniciarem um movimento gradual de correção, conduzindo a uma progressiva normalização das condições de mercado.
“No cenário mais provável, admitindo que os preços dos combustíveis venham a aliviar nas próximas semanas ou meses, a atual recuperação da procura de BEV deverá revelar-se temporária”, conclui Taitz. “Aquilo que hoje observamos parece corresponder mais a um ajustamento conjuntural de curto prazo do que a uma alteração estrutural da procura subjacente.”
Neste sentido, a recente melhoria da liquidez do mercado poderá representar uma fase transitória, e não ainda o início de uma recuperação sustentada, continuando o mercado europeu de BEV a enfrentar pressões estruturais de fundo.




